VISÃO DO CORREIO

Lições ao Brasil

''As eleições nos EUA são a oportunidade de ouro para que o Brasil reflita sobre os erros cometidos pelos estadunidenses e corrija os rumos tomados, equivocadamente, em passado recente''

Correio Braziliense
postado em 10/11/2020 06:00 / atualizado em 10/11/2020 08:34

São muitas as lições que o Brasil pode tirar das recentes eleições presidenciais nos Estados Unidos. O processo eleitoral no gigante do norte mostrou, claramente, que o clima de beligerância adotado pelo presidente republicano Donald Trump, que insiste em não reconhecer a derrota para o democrata Joe Biden, não leva a lugar algum. Só contribui para dividir, ainda mais, uma nação que viveu os últimos quatro anos sob o comando do populista radical que desviou os EUA do caminho da tolerância e do diálogo, além de afastá-lo de tradicionais aliados, sobretudo os europeus.

O confronto, também cultivado no Brasil por autoridades do momento, inclusive o presidente Jair Bolsonaro, não pode triunfar. Biden se elegeu com propostas de conciliação do povo americano e já disse que irá governar para todos os cidadãos de seu país, independentemente de sua coloração ideológica ou partidária. Trump é um especialista do enfrentamento, o que não faz bem a ninguém. Numa de suas últimas manifestações radicais, apoiou os supremacistas brancos norte-americanos, quando o país era tomado por protestos, depois da morte de pessoas negras pelas mãos de policiais brancos.

Aqui, no Brasil, Bolsonaro chegou a apoiar, no ano passado, manifestantes que cercaram o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) e ameaçaram fechar o Congresso Nacional. Diante da reação de vários setores da sociedade, o presidente baixou as armas e abriu canais de comunicação com lideranças dos outros Poderes. Atitude acertada, já que o cidadão brasileiro almeja viver em um ambiente de tranquilidade e paz, e ter um emprego decente para oferecer uma vida digna à sua família.

Os constantes atritos com a imprensa patrocinados pelo Palácio do Planalto, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos com Trump na Casa Branca, prejudicam o próprio país, pois todos buscam um esforço conjunto para o desenvolvimento socioeconômico sustentável do Brasil. Esses seguidos confrontos desviam a atenção para os reais e difíceis problemas da atualidade. São ataques e críticas sem sentido. Que não se repita aqui o que aconteceu nos EUA, quando as três principais redes de televisão aberta cortaram a fala do presidente Trump, que insiste na tese de fraude nas eleições sem apresentar provas.

O governo brasileiro precisa se aproximar dos ambientalistas para que se chegue a um consenso quanto à questão da Amazônia. O mundo todo critica a política atual do Brasil para o meio ambiente — o país já foi exemplo a ser seguido na área — e o próximo presidente dos EUA colocou o dedo na ferida chamada Amazônia no primeiro dos dois debates com o adversário. Citou o descaso do Planalto com o meio ambiente, cujos órgãos de controle e fiscalização vêm sendo esvaziados, sistematicamente. Acenou com a possibilidade de liberar um fundo de US$ 20 bilhões para a preservação da região, mas, também, adiantou que vai impor sanções econômicas se nada for feito para coibir o desmatamento e as queimadas.

Quanto à pandemia do novo coronavírus, Biden anunciou a criação de uma força tarefa para combater a covid-19, que continua sendo desprezada pelo presidente Trump. Ele insiste na negação obscurantista da ciência e seu país é líder mundial de casos registrados e de mortes. No Brasil, conflitos políticos envolvendo a pandemia são a melhor forma de piorar o problema, cuja segunda onda deve acontecer em futuro próximo. Discussão sobre a obrigatoriedade ou não da vacinação é outra maneira de complicar o que, por si só, já é complicado demais.

As eleições nos EUA são a oportunidade de ouro para que o Brasil reflita sobre os erros cometidos pelos estadunidenses e corrija os rumos tomados, equivocadamente, em passado recente. Devemos focar nos nossos problemas verdadeiros e mais urgentes, como a criação de empregos e recuperação da economia, e esquecer os espetáculos pirotécnicos promovidos pelo sr. Trump.

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