Visão do Correio

Politização não abate o coronavírus

''No Congresso Nacional, adormecem as reforma estruturais. O orçamento do próximo ano está longe de ser discutido e aprovado, sem contar tantas outras medidas importantes para o pós-pandemia que passam ao largo do discurso presidencial''

Correio Braziliense
postado em 11/11/2020 06:00 / atualizado em 11/11/2020 08:31

O Brasil vive momentos conturbados, em que os interesses políticos estão se sobrepondo a ações de proteção à saúde dos brasileiros. E esse movimento perverso está sendo liderado pelo presidente Jair Bolsonaro, que, em mais um round na disputa com o governador de São Paulo, João Dória, declarou-se vitorioso diante da decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de suspender os estudos da CoronaVac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan e pelo laboratório chinês Sinovac. A decisão da agência ocorreu após um alerta do Butantan de que havia ocorrido um caso adverso com um dos voluntários, mas que nada tinha a ver com o imunizante.


“Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, publicou o presidente, na manhã de ontem, em uma rede social. No meio da tarde, descobriu-se que o voluntário havia se suicidado. Ou seja não foi a óbito por um efeito “adverso” da testagem da vacina.


Esse, infelizmente, não será o último descalabro desta disputa política, tanto que, mesmo depois da repercussão negativa de suas palavras, Bolsonaro disse que o Brasil virou um país de “maricas” por causa da covid-19. Nesse momento tão difícil para todos — mais de 162 mil brasileiros perderam a vida para a doença provocada pelo novo coronavírus —, o papel de um líder de uma nação deve ser o de apaziguador, de espalhar conforto, de dar segurança e de evitar polêmicas desnecessárias. Nada do que se vê no inquilino do Palácio do Planalto.


Está evidente que o mais importante para a sociedade brasileira — e do planeta — é que haja uma vacina contra o inimigo comum, que vem dizimando vidas e causando danos sociais e econômicos, cuja reparação levará muito tempo. Entre as nações mais afetadas está o Brasil, com milhões de desempregados, outros milhões de desalentado, além da fome e da miséria que ganham território em todo o país.


O retorno à normalidade está longe de acontecer. A Europa e os Estados Unidos enfrentam a segunda onda da maior crise sanitária em um século. Todos veem seus planos e projetos de governo sendo corroídos pelo vírus. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subestimou os danos da covid-19, desprezou as orientações da ciência, dos sanitaristas e da medicina. A maior potência do planeta tornou-se a primeira em número de infectados e de mortos. Por esses e outros motivos, Trump foi rejeitado pelos eleitores americanos nas eleições do último dia 3.


Bolsonaro adotou a mesma linha de Trump. E se mantém convicto de que a crise epidemiológica é apenas uma “gripezinha”. Ontem, acrescentou: “Tudo agora é pandemia. Tem de acabar esse negócio”. Para isso, é preciso vacina, que não tem partido nem interesses eleitorais. Mais: nem tudo que vem arrasando a economia brasileira se deve ao novo coronavírus. Em boa medida, o estrago decorre da falta de uma liderança política comprometida com o desenvolvimento do país.


No Congresso Nacional, adormecem as reforma estruturais. O orçamento do próximo ano está longe de ser discutido e aprovado, sem contar tantas outras medidas importantes para o pós-pandemia que passam ao largo do discurso presidencial. Enfim, falta ao país um plano de governo e uma agenda social, econômica e de investimentos compatíveis com as necessidades da população e coerentes com as promessas de campanha.


Portanto, que fique claro: a politização da vacina contra o novo coronavírus é inconcebível diante do aumento do número de vítimas. O rótulo do imunizante não trará os nomes de Doria ou Bolsonaro. O medicamente será mais uma conquista de cientistas e especialistas que não disputam cargos em governos. Buscam, apenas, os meios disponíveis para garantir a vida da humanidade.

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