Visão do Correio

Educação, um desafio para o pós-pandemia

Correio Braziliense
postado em 24/11/2020 07:52 / atualizado em 24/11/2020 08:40
 (crédito: Rodrigo Nunes/Esp.CB)
(crédito: Rodrigo Nunes/Esp.CB)

A pandemia do novo coronavírus lançou luzes fluorescentes sobre as tragédias socioeconômicas do país. Mais de 38 milhões de invisíveis vieram à superfície. Identificou-se quase 14 milhões de brasileiros abaixo da linha da miséria. Na educação, revelou que as ferramentas ofertadas pela internet não chegaram ao ensino público, tanto pela profunda desigualdade econômica, quanto pela não universalização de acesso ao meio virtual em todo o território nacional.

Entre 79 países, o Brasil ocupa a segunda posição entre os que têm menor quantidade de computador por estudantes, conforme levantamento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Não à toa o ensino a distância, opção para manter os estudantes em sala de aula durante a crise sanitária, fracassou.

Estudantes de baixa renda foram excluídos dessa possibilidade, seja por falta de celular ou computador, seja por falta de acesso à rede mundial de informação. Boa parcela, mesmo com celular, não tem capacidade financeira para custear um pacote de dados, cobrado pelas operadoras de telefonia móvel. Os mais afetados são pretos e pardos, que representam 75% dos que estão abaixo da linha da pobreza. Por falta de escolaridade adequada, eles também não terão, no futuro, acesso ao mercado de trabalho.

Os professores, acostumados à sala de aula, também não estavam capacitados para levar o conteúdo da grade curricular para o meio virtual. Não foram treinados para substituir o giz e o quadro verde por uma plataforma virtual. Desafio imposto pela crise, sem tempo para adaptação à nova realidade ou ao novo normal.

Diante desse quadro, com efeito negativo generalizado em todos os níveis, igualmente nas redes pública e privada, os mais pobres foram os que tiveram prejuízo. Os alunos não serão reprovados neste ano. Mas chegarão em 2021 com deficit do conteúdo programático. Como recuperar o que foi perdido em 2020, principalmente nas disciplinas que são pré-requisitos para as do ano seguinte? Até agora, não há um modelo para repor as perdas e promover avanços no próximo ano nas diferentes etapas dos ensinos básico, fundamental e médio.

“O fortalecimento dos sistemas de educação precisa estar no centro do planejamento do governo para se recuperar desta crise e dar aos jovens as habilidades e as competências de que precisam para ter sucesso”, disse o secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Angel Gurría, durante o lançamento do relatório Education at Glance 2020, em setembro último.

O Anuário Brasileiro da Educação Básica 2020, divulgado em agosto, revelou que cerca de 80% dos mais de 2,2 milhões de professores da educação básica estão nas redes públicas de ensino. Ao mesmo tempo, os dados mostraram que só 56,8% das turmas finais do ensino fundamental tinham professores com formação compatível com as disciplinas que lecionavam. O dado reforça a importância de o poder público investir na formação continuada dos docentes a fim de obter uma resposta adequada no pós-crise sanitária e melhorar a qualidade do ensino.

Sem esses investimentos nos professores, em tecnologia e na infraestrutura das escolas, o Brasil seguirá reproduzindo pobreza. Permanecerá mergulhado nos dramas causados pelas desigualdades socioeconômicas, que o distancia do estágio de desenvolvimento próprio do século 21.

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