Opinião

O Alemão e a Penha que eu vi

OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS
postado em 24/11/2020 07:55 / atualizado em 24/11/2020 08:41

Há dez anos, o Rio de Janeiro vivia um indisfarçável caos na segurança pública. Ônibus e carros eram incendiados nas principais avenidas, os assassinatos tornaram-se rotina nas comunidades e “áreas liberadas” — onde o Estado não é capaz de impor seu poder — vicejavam sob total domínio do crime organizado.

Governo federal e estadual estabeleceram um protocolo político-jurídico para permitir o trabalho conjunto das forças de segurança pública com vistas à retomada das áreas controladas pelo crime.

Ao Exército coube a responsabilidade de liderar as ações em um território delimitado minuciosamente, sendo a coordenação conferida a um oficial general combatente.

Retomo este assunto para trazer-lhes a minha percepção, a partir de um extrato de artigo que publiquei, logo em seguida ao retraimento de tropas que estiveram sob o meu comando naquela área, no período de novembro de 2011 a fevereiro de 2012.

Já se foram longos dez anos. O que se pode inferir como aprendizado daquela operação inédita? Quais as consequências para o carioca? Qual a situação de momento no quesito segurança pública?

Eis o trabalho:

“Bom dia, boa tarde, boa noite!”

“Por favor, com licença, conte conosco!”

“Obrigado!”

Frases simples em nossas experiências familiares e comunitárias do asfalto. Para os moradores dos Complexos da Penha e do Alemão foram sinônimos das mudanças que se apresentavam após a vitória das forças de segurança, em seguida à investida sobre os morros em novembro de 2010.

Na reconquista daquele sítio, dominado pelo crime organizado há mais de vinte anos, imagens dantescas correram o mundo com traficantes fugidios, atravessando a Serra da Misericórdia.

A Brigada de Montanha, então sob meu comando, foi responsável pela Operação ARCANJO 5, com efetivo de 2.000 homens e mulheres integrantes do Exército, Polícia Militar e Polícia Civil do Rio de Janeiro desdobrados no terreno 24 horas por dia, 7 dias da semana, ao longo de 100 dias de ação.

Qual comportamento mais se adequava naqueles momentos de retomada do território: o do combatente que elimina o inimigo ao menor sinal de resistência ou o soldado “mão amiga” que identifica os problemas socioeconômicos, colabora para a solução e se põe à disposição para apresentar novas perspectivas de vida àquela sociedade? Essa última visão estava mais em sintonia com o momento que vivíamos.

Com a experiência do comando do 1º Batalhão de Força de Paz em Porto Príncipe, no Haiti, apreendi que lidar com outro idioma e outra cultura, suportado por acordos internacionais e sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU) era muito mais fácil que aplicar a força contra a nossa população, irmãos em sangue e em desafios.

Dessa percepção, nasceram as diretrizes que nortearam os gorros cinzas (tropa de montanha) no convívio com as comunidades daquelas áreas a serem pacificadas.

Quantos dentre os cerca de 150 mil habitantes da região eram de fato criminosos? As pessoas do bem mereciam a mesma atitude de nossos soldados que os gerentes de boca de fumo, os olheiros, os fogueteiros?

Não! Claro que não!

A conquista da confiança foi nosso primeiro objetivo. Antes da força de pacificação, os grafites em muros revelavam a admiração pelo crime organizado, pelo uso ostensivo de armas pesadas e pela apologia às drogas.

Quebrar essa lógica era difícil. Um pai de família, trabalhador, pagador de impostos, ganhava a metade do que auferia um garoto imberbe, usado como olheiro de alguma boca de fumo.

A tropa em contato cerrado com os jovens, com as famílias, com as crianças trouxe uma nova expectativa de futuro. O direito e o dever advindos do Estado tinham um valor maximizado pela sensação de que estar dentro da lei é prêmio ao ser humano que vive em sociedade.

O povo é do bem!

A energia do soldado profissional, muito bem equipado e comprometido com a missão imposta, iluminava a nova vida. Aquela que lhes foi sequestrada às comunidades pela presença das drogas, das armas e dos traficantes.

Em pouco tempo já notávamos desenhos homenageando os soldados da pacificação. Onde antes existia o fascínio pelos bailes funks regados à bebida e à droga, comandados pelos chefões do crime organizado, agora, a felicidade da feira livre na emblemática Rua Joaquim de Queiroz.

A felicidade pelos projetos de inclusão social, a certeza do chegar em casa, ao final de um dia de trabalho, sem esgueirar-se de tiros trocados entre as gangues na luta pelo poder promoviam a sensação cada vez mais consistente de segurança na comunidade.

É encantador o sorriso das crianças aprendendo a escovar seus dentes, a brincar com palhaços que lhes regalavam brinquedos doados por empresas que acreditavam na paz, a escutar a Orquestra Sinfônica Brasileira.

É encantador ver mães e pais levando por suas mãos calejadas, as mãos sensíveis de seus filhos que aprenderão a viver imersos na paz, a desfrutar de creches e escolas públicas que lhes abrirão os caminhos para dias mais promissores.

É encantador encontrar turistas do nosso país e do exterior, ansiosos por conhecerem os teleféricos do Alemão, Itararé e Adeus sem a mínima preocupação de que possam sofrer com “balas perdidas” ou achaque de criminosos.

É encantador...

Voltamos ao nosso novembro de 2020.

É dolorido olhar agora a cidade maravilhosa e perguntar. Onde erramos todos nós?

É dolorido...

Paz e Bem!

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE