Em Shangri-lá há esperança

OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS
postado em 08/12/2020 07:55
 (crédito: Editoria de arte)
(crédito: Editoria de arte)

Há cerca de nove meses, escutávamos o então ministro de Estado da Saúde oferecer ao Brasil um relato dos desafios que iríamos enfrentar no combate à pandemia da covid-19. A praga chegara ao país no mês de fevereiro e já se tornava claro aos profissionais de saúde que não se tratava de uma gripe normal a ser combatida apenas com vitamina C, analgésico e cama.

Exigiria sangue frio, persistência, humildade, articulação e muitos ajustes ao longo do caminho. Parece que suas predições estão a confirmar-se e são corroboradas por números alarmantes. São 170 mil vidas que nos foram tiradas. Números de infectados com tendência de alta. E a doença, lastimosamente, ainda sem controle!

A humanidade, devedora por sempre da ciência, já respira aliviada diante das vacinas que se mostram segura e eficazes. Que cheguem logo à Terra de Santa Cruz.

Em uma de suas entrevistas, o ex-ministro citou O mito da caverna, do filósofo Platão. Foi um contraponto às declarações de grupos que, habitando na escuridão de uma caverna, apenas enxergavam os reflexos das sombras sobre a parede pedregosa. A alusão à atmosfera lúgubre da gruta úmida, permite-nos refletir sobre os atuais ambientes atomizados das redomas sociais.

Nesses, os seres das profundezas (sou da época do Nacional Kid) encontram segurança psicológica exclusivamente entre aqueles com quem convivem nas mesmas regras distópicas. Os temas evocados por esses grupos arrepiam os que vivem fora da caverna e que podem enxergar o mundo a partir de uma visão mais iluminada.

A terra é plana.

As vacinas fazem mal.

Se não é meu amigo, é meu inimigo.

Queimem-se os livros.

Aliás, foi grande o impacto sobre as pessoas normais ao se depararem com um vídeo postado há algumas semanas na internet no qual se viam arder em chamas, aos gritos alucinados dos incendiários, livros do escritor Paulo Coelho. “Onde se lançam livros às chamas, acaba-se por queimar também os homens.” (Heinrich Heine)

No início da década de 1930 do século passado, os nazistas queimaram livros de intelectuais como Albert Einstein e Sigmund Freud, com uma retórica semelhante a essa que vimos naquele vídeo. Freud, não compreendendo a dimensão do que estaria por vir, declarou a um amigo: “Que progresso que estamos fazendo. Na idade média, teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros.”

A história, nós já a conhecemos. E como foi dolorosa.

O mundo não nasceu e cresceu nessa caverna de trevas intelectual. Ao revés, seus espeleólogos foram ludibriados e impelidos a descerem na escorregadia trilha guiados por um frágil barbante ligado ao mundo externo. Ele se rompeu.

Pobres de espírito!

As encruzilhadas da vida se apresentam a todos nós. É destino. Regeneram a nossa existência. São momentos que nos permitem refazer ou corrigir nossos rumos. Na Bíblia, é o livre arbítrio.

Quando elas se transformam em entroncamentos multimodais, cheios de semáforos multicoloridos, de placas de neon indicadoras de inúmeros destinos, a decisão por qual modal e por qual caminho seguirmos definirá a nossa existência como humanidade.

Chegamos na adolescência do século 21 diante de uma encruzilhada como aquela e teremos de decidir. Qual a escolha de Sofia: viver nas profundezas da gruta ou aquecer-se à luz do sol?

As nossas posturas individuais podem assegurar uma peregrinação pacífica pela trilha que nos leve a Shangri-Lá (cidade ficcional da obra Horizonte Perdido, escrita por James Hilton, em 1933), um mundo utópico é verdade, mas instigador de harmonia e esperança. E lá o sol brilha intensamente!

Esse mundo entre montanhas existe em cada um de nós. Niccolo Machiavelli descreveu: “Não há nada tão desesperador como não ter uma nova razão para ter esperança.”

E nós temos!

Paz e bem!

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