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Artigo: De Demba Ba a Robinho

A postura firme do PSG e do Istanbul ao tirarem os times de campo em protesto contra a injúria do árbitro foi o auge da resposta imediata ao episódio em uma cidade emblemática, Paris

Marcos Paulo Lima
postado em 12/12/2020 10:43
 (crédito: AFP / FRANCK FIFE)
(crédito: AFP / FRANCK FIFE)

O posicionamento do franco-senegalês Demba Ba no episódio de racismo do quarto árbitro romeno Sebastian Coltescu contra o camaronês Pierre Webó, no jogo desta semana da fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa entre Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir, merece aplausos de pé, prêmio presidencial da Fifa e até Nobel da Paz, se for possível.

O atacante de 35 anos teve coragem de enfrentar o ato racista literalmente de frente, como a Fifa poucas, ou nenhuma vez, quis. Demba Ba não tinha em mãos aqueles textos prontos da campanha “Say no to Racism” elaborados pela entidade máxima do futebol e lidos no idioma dos capitães das seleções antes dos duelos de mata-mata da Copa. Ele disse na cara de Coltescu o que vinha do fundo do coração. Sem ensaio. Muito menos montagem.

A postura firme do PSG e do Istanbul ao tirarem os times de campo em protesto contra a injúria do árbitro foi o auge da resposta imediata ao episódio em uma cidade emblemática, Paris. E com a visibilidade midiática do mais badalado torneio continental de clubes do mundo. Portanto, o movimento de Demba Ba e seus colegas de profissão é inquestionável.

Questionável é um detalhe que passou despercebido e diz respeito ao Istanbul Basaksehir e a um jogador brasileiro. O clube turco, que ganhou repercussão mundial no episódio de terça, empregou Robinho de 5 de janeiro de 2019 a 10 de outubro deste ano. Ele desembarcou no clube condenado em primeira instância por estupro pelo Tribunal de Milão . Perdeu também em segunda instância. O Istanbul é um time sem torcida. Deu de ombros para o estupro coletivo. Sem pressão popular, fez o que o Santos tentou. Contratou. O Peixe foi freado pela opinião pública.

Por que o Istanbul fechou com um jogador acusado de estupro? Explico a pergunta. Fundado em 1990, o clube com sede em Basaksehir, distrito com 207 mil habitantes, é considerado time do governo. Teve ajuda do presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, na inédita conquista do Campeonato Turco neste ano. Erdogan é conhecido pelo autoritarismo, fundamentalismo religioso e populismo. Tem discurso ultranacionalista, conservador e preza pela tradição muçulmana. O caso de Robinho contraria tudo isso. Mesmo assim, Erdogan está no segundo mandato.

O Istanbul Basaksehir era um time discreto até 2014, quando Erdogan ocupava o posto de primeiro-ministro. Com a ascensão a presidente, o clube prosperou. Foi comprado pelo Ministério da Juventude e dos Esportes e virou extensão do governo. Recebeu altos investimentos. Entre eles, Robinho. Contratado para ser a estrela, o brasileiro entrou em campo em 15 rodadas na campanha do título e não fez gol. Na temporada, 25 jogos sem bola na rede.

O Istanbul ganhou holofote no episódio de Pierre Webó. Demba Ba fez gol de placa em defesa do profissional camaronês e o time turco foi muito além do esperado ao deixar o campo. Porém, o clube precisa combater suas mazelas. Dar “asilo” a Robinho foi um pecado. Ignorar a denúncia de estupro coletivo e o processo enquanto ele esteve lá é tão grave quanto o racismo.

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