Visão do Correio

Desigualdade mata crianças

Correio Braziliense
postado em 21/12/2020 08:06 / atualizado em 21/12/2020 08:12

Problema crônico no Brasil que nunca foi enfrentado como deveria ser pelos governantes, a desigualdade social e econômica é responsável pela mortalidade de 30% das crianças brasileiras de até 5 anos. Mais um título vergonhoso que o país tem colecionado ao longo de sua história. O levantamento denominado Índice Brasileiro de Privação (IBP), realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra, de forma inequívoca, a falta de sensibilidade dos governos que se sucedem para diminuir as taxas de pobreza e prover a população de serviços essenciais de qualidade como educação, saúde e saneamento básico.

Na avaliação dos especialistas que participaram do estudo, a proporção de mortes decorrentes da desigualdade seria pelo menos 30% menor se o IBP fosse baixo — quanto mais alta a taxa, piores são as condições de vida de determinada região. Garantem que o índice da Fiocruz tem capacidade de identificar as áreas desiguais do ponto de vista da privação material, o que pode ajudar as autoridades a identificar as populações mais vulneráveis e implementar políticas públicas mais equânimes.

A pesquisa não deixa dúvida quanto à obviedade de que as crianças que moram em bairros e cidades com elevado Índice de Privação têm duas vezes mais chance de falecer por causa de doenças infecciosas, como diarreias, do que as que vivem em locais onde as condições de renda, escolaridade e habitação são melhores. O que chama a atenção é que os números variam numa mesma região, uma vez que num determinado bairro, por exemplo, pode haver realidades completamente distintas.

O levantamento deixa claro que os óbitos infantis provocados pela desigualdade são menores no Sul e no Sudeste, e os maiores, no Norte e Nordeste. Com a pandemia do novo coronavírus, a pobreza e a desigualdade aumentaram, quando se descarta os efeitos do auxílio emergencial criado pelo governo para socorrer milhões de brasileiros, mas que termina no fim deste mês. Sanitaristas lembram que pobreza significa maior exposição a doenças, que há bolsões das enfermidades infecciosas ainda bastante significativos no país e que as causas externas de mortalidade estão totalmente correlacionadas à privação socioeconômica.

Os gestores públicos podem e devem utilizar as informações do IBP, cuja metodologia está mais voltada para a saúde, como acesso à água potável e saneamento, como instrumento de adoção de políticas públicas de combate à desigualdade. Identificar os grupos mais vulneráveis e direcionar programas visando diminuir o fosso social entre grupos populacionais do país. Têm a obrigação de dar combate sem trégua à desigualdade.

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