VISÃO DO CORREIO

Quanta falta de respeito

Hoje, mesmo com quase 200 mil vidas perdidas para a covid, parte dos brasileiros está mais preocupada em se divertir do que em emitir gestos de conforto às famílias destroçadas, cujo fim de ano foi de luto pela ausência de pais, mães, irmãos, tios, sobrinhos

Correio Braziliense
postado em 03/01/2021 07:14 / atualizado em 03/01/2021 17:42

As inacreditáveis cenas de aglomerações que vimos no Natal e na virada de ano são o retrato mais cruel de como valores tão importante, como respeito e solidariedade, estão se decompondo. Mesmo com todos os alertas de médicos, cientistas e epidemiologistas sobre a importância do distanciamento social em meio à pandemia do novo coronavírus, foram inúmeros os registros de festas, praias e ruas lotadas, com todos os presentes sem máscaras. A preocupação com a própria vida e as das demais pessoas tornou-se banalidade. Que sociedade é esta que estamos vendo?

Já se repetiu milhares de vezes que todos estão cansados das medidas restritivas impostas pela covid-19. Sim, são 10 meses de privações, mas nada justifica o desrespeito que tomou conta do país, num momento gravíssimo, em que, novamente, há filas de espera por um leito de UTI nos hospitais. Infelizmente, os profissionais de saúde começam a se deparar com o duro dilema de escolher quem será salvo. Por que é tão difícil para boa parte das pessoas entender que a hora é de união, de pensar no próximo, de ter um pouco mais de sensibilidade? Afinal, todas as vidas importam.

Depois de tantos sacrifícios, falta tão pouco para que todos possam retomar a normalidade de suas vidas. As vacinas contra o novo coronavírus já estão sendo aplicadas em vários países e devem ser liberadas ainda neste mês de janeiro, no Brasil. É verdade que falta uma grande liderança para conclamar a população a se engajar em um projeto de imunização, resgatando o Brasil que sempre foi uma referência global nesse quesito. Mas bom senso independe de uma voz política. Está intrinsecamente ligado a nossa formação como seres humanos.

A historiadora Heloísa Starling, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não exagera quando diz que as imagens de aglomerações vistas Brasil afora expressam uma sociedade degradada. Ela ressalta que fez uma ampla pesquisa e, em nenhum período da história do país, encontrou um comportamento da população semelhante ao que se viu nos últimos dias. Durante a gripe espanhola, no início do século passado, houve exatamente o contrário. Diante das milhares de mortes pela doença, acrescenta ela, a solidariedade imperou em todas as cidades do país.

Hoje, mesmo com quase 200 mil vidas perdidas para a covid, parte dos brasileiros está mais preocupada em se divertir do que em emitir gestos de conforto às famílias destroçadas, cujo fim de ano foi de luto pela ausência de pais, mães, irmãos, tios, sobrinhos. Entre os especialistas, fica a intrigante pergunta: esse comportamento já existia antes da pandemia e não queríamos ver? Os mais céticos dizem que a perda de referências sociais e de valores vem de longe. Agora, contudo, as pessoas estão se sentido mais confortáveis para colocar para fora o que têm de pior.

É difícil pensar em um futuro em que a falta de respeito e o individualismo serão as marcas da sociedade. Mas ainda dá tempo de se reverter esse quadro. Sempre há a esperança de que as pessoas podem melhorar. Tomara que essa consciência não venha acompanhada da dor de perder entes queridos.

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