ARTIGO

Precisamos proteger as pessoas

Após tantos meses de pandemia, a realidade é que nossos heróis estão esgotados. Os profissionais de saúde que estiveram na linha de frente no combate à doença são os mesmos que enfrentarão uma possível segunda onda, que já está se formando em diversas regiões do Brasil. Mas, se os profissionais de saúde vão seguir exaustos, como podemos minimizar esse dano?

Vânia Rodrigues Bezerra*
postado em 03/01/2021 07:23 / atualizado em 03/01/2021 07:24

São poucos os países que ousaram propor um sistema de saúde integral e com princípios como a universalidade, a equidade e a integralidade. No Brasil, há mais de 30 anos, usufruímos desse conceito, que colocou o país em uma posição de vanguarda na saúde pública. A criação do Sistema Único de Saúde (SUS), com a Constituição Federal de 1988, iniciou um legado de acesso à saúde para todos os brasileiros.

Em 2020, a saúde tornou-se protagonista do debate mundial com a pandemia do novo coronavírus. E a Covid-19 nos trouxe diversas lições. Uma delas é a necessidade de cooperação entre todos os setores da sociedade, e entre saúde pública e saúde suplementar. Somente com os sistemas de saúde trabalhando de forma integrada conseguiremos potencializar a efetividade do SUS, nosso alicerce nessa crise, que, além de ser uma crise de saúde, também é humanitária.

É notável que vivemos uma sindemia. Esse neologismo, que une os conceitos sinergia e pandemia, foi destacado recentemente no periódico britânico The Lancet, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo. Essa ideia busca explicar uma situação na qual duas ou mais doenças interagem entre si, causando danos muito maiores do que o esperado.

No Brasil, ela escancara as vulnerabilidades intrínsecas e extrínsecas de nossa sociedade de uma forma inédita. Isso porque a sindemia também é caracterizada pelas condições sociais e ambientais, que podem ou não aumentar a vulnerabilidade de uma população perante uma situação adversa. Dessa forma, é primordial entendermos esse fenômeno para enfrentarmos esse momento em suas múltiplas complexidades.

Nesse cenário desafiador, seguimos com a parceria com o Ministério da Saúde por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). Nosso interesse genuíno pelo fortalecimento do SUS possibilita uma ação sistemática e continuada para proteger, além do sistema como um todo, o recurso mais nobre em qualquer sociedade: as pessoas.

Após tantos meses de pandemia, a realidade é que nossos heróis estão esgotados. Os profissionais de saúde que estiveram na linha de frente no combate à doença são os mesmos que enfrentarão uma possível segunda onda, que já está se formando em diversas regiões do Brasil. Mas, se os profissionais de saúde vão seguir exaustos, como podemos minimizar esse dano?

Recentemente, montamos um squad care, que promove um cuidado 360º para os colaboradores, olhando de perto as dimensões e os impactos psicológicos da pandemia. Em um período de crise, as pessoas podem se estagnar por conta do medo. Portanto, um acompanhamento nesse nível é essencial, pois, se não cuidarmos e protegermos nossas pessoas, não conseguiremos continuar entregando com excelência.

No SUS, o desafio é ainda maior. Por meio do Proadis, acompanhamos UTIs via telemedicina, realizamos visitas in loco para qualificação de profissionais e municiamos o Ministério da Saúde com dados que ajudarão a compreender melhor o comportamento da pandemia. No entanto, além de ofertarmos todo o recurso técnico e inovativo, é preciso também olhar com um cuidado especial para as outras dimensões da pandemia.

A nossa missão é melhorar a vida das pessoas. Em um momento como esse, ajustamos o nosso propósito para amenizar o sofrimento humano, seja ele físico ou psicológico. Precisamos, acima de tudo, continuar protegendo as pessoas.

*Superintendente de Compromisso Social do Hospital Sírio-Libanês

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