Racismo estrutural

Os negros continuam cidadãos de segunda categoria, relegados a atividades de subserviência, ao ponto de, ao se verem em destaque em qualquer atividade profissional, ser notável exceção.

Jaime da Rosa Santos*
postado em 15/01/2021 21:53 / atualizado em 16/01/2021 09:31
 (crédito: Gomez)
(crédito: Gomez)


Um termo aparentemente novo. Mas, de novo, nada tem. No Brasil, o racismo foi imposto pelo próprio descobrimento, sendo assim, por óbvio, a estrutura da sociedade é racista. Não obstante os 32 anos da Carta Magna e os 100 anos da abolição, comemorados naquele ano, pouca coisa mudou. Os negros continuam cidadãos de segunda categoria, relegados a atividades de subserviência, ao ponto de, ao se verem em destaque em qualquer atividade profissional, ser notável exceção.

Pergunto: onde está a raiz desse mal? Respondo: na absoluta falta de oportunidades. Oportunidade de acesso a estudo, a trabalho, por consequência, ausência de trabalho digno, de moradia digna, de saúde e tudo o mais. Isso tudo é o racismo estrutural imposto pela sociedade, que, quando assiste a uma grande empresa fazer o chamamento para empregar pessoas negras, rebela-se e reage com o absurdo da classificação de racismo inverso.

O que se reverbera como racismo estrutural é tudo o que a sociedade mantém silenciado na consciência coletiva, negado aos quatro ventos, como se possível fosse afogar a história presente.

Quando olho para o belíssimo cartão postal e vislumbro a aprazível praia de Ipanema, na minha cidade adotiva, fica impossível não perceber no alto do quadro o morro do Pavão Pavãozinho. Também, na bela praia do Leme, visualiza-se as favelas do Chapéu Mangueira e da Babilônia, apenas pra ficar nesses. Mas, e daí? O que tem isso a ver com o racismo estrutural? Mais uma vez, respondo. Resquícios da estrutura estabelecida pelo separatismo social/racial. Mudando o foco, sem fugir da raiz, o que falar das universidades públicas, federais e estaduais, quantos alunos afrodescendentes as frequentam? Gostaria de ter repostas firmes e contundentes.

Sou um homem negro de 66 anos de idade. Minha história se mostra extremamente parecida com a de muitos de nós que desbravamos a cortina de ferro do preconceito, em busca do lugar, que deveria ser de natural alcance.

Apenas, como ilustração, em minha experiência pessoal, no ano de 1995, participei da minha primeira audiência, na Justiça Federal em Porto Alegre, na qualidade de representante judicial da União. Recordo bem os olhares forasteiros, verdadeiramente excêntricos, marcantes, inesquecíveis. Por fim, nossa luta permanecerá por muito tempo. Não seremos derrotados.

Todas as formas de resistência ao racismo devem ser perseguidas e utilizadas. Aí, continuo perguntando: como furar esse bloqueio, que, por vezes, faz-se invisível, por outras, descarado? Pois o ser humano, que, com toda sua evolução científica, atingiu o inatingível, é fadado ao fracasso da incapacidade de olhar o próximo como um igual, mesmo com suas peculiaridades. Porque, como nos ensinava Aristóteles, na Grécia antiga: “Tratar igualmente aos desiguais é desigualdade flagrante” e, se não somos capazes de absorver a naturalidade da convivência, que será de nós e da convivência em sociedade?

Como proceder quando entrarmos em uma lanchonete e ficarmos submetidos a um atendimento desigual, por motivos óbvios? O que fazer quando ingressarmos em uma loja e formos seguidos por um segurança? O que fazer quando um táxi desocupado não atender o nosso sinal? O que fazer? Resistir. Continuaremos resistindo.

Nossas mulheres resistirão com a exibição dos seus belos cabelos crespos armados para o alto. Continuaremos com nossas roupas com expressões coloridas a exibir nossa felicidade, apesar dos pesares. Continuaremos a manifestar nossa cultura com cabelos trançados e músicas de alerta e protesto. Continuaremos a construir o maior espetáculo da terra, o carnaval. Continuaremos a cultuar nossos orixás, origem dos verdadeiros deuses. Continuaremos a escutar as histórias dos nossos pretos e pretas velhas, que nos transmitem a sabedoria da palavra original.

Continuaremos lutando pela igualdade de oportunidades, apesar das adversidades. Continuaremos promovendo o verdadeiro moitará [termo usado pelos índios do Alto Xingu pelo qual designam o encontro para trocas de produtos, intercâmbio cultural e confraternização entre as tribos], na busca do crescimento conjunto. Nada nos fará desistir daquilo que nos pertence: a igualdade, a fraternidade e a liberdade.

*Assessor jurídico aposentado da Advocacia-Geral da União (AGU)

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