OPINIÃO

Farinha pouca, meu pirão primeiro!

''Parece-me evidente que a manutenção do crescimento do nacional populismo no mundo, neste século, vem ancorada em ideólogos cujas crenças e valores remontam ao período anterior ao Iluminismo''

postado em 29/01/2021 06:00 / atualizado em 29/01/2021 09:02
 (crédito: Gomez)
(crédito: Gomez)

Orlando Thomé Cordeiro
Consultor em estratégia

 

Há alguns anos, um experiente político contou-me a seguinte história. Em uma pequena cidade, foi inaugurado um clube que promovia festas com foco em saliências de vários tipos. O acesso era exclusivo a um pequeno número de moradores. Em pouco tempo, parte da sociedade começou a protestar, indignada com a situação de afronta à moral e aos bons costumes. Até que um dia, os donos do clube, ao se dirigirem ao local para abrir as portas, se depararam com uma multidão do lado de fora. Inicialmente, ficaram preocupados por achar que a campanha contra suas atividades estava crescendo. Porém, ao chegarem perto das pessoas concentradas na porta perceberam que, na verdade, era uma manifestação exigindo que eles permitissem a admissão de novos associados.

O relato acima guarda enorme analogia com a evolução da atividade política nas democracias ocidentais. E não precisamos ir muito longe. Basta acompanharmos o noticiário sobre as eleições da próxima segunda-feira para as presidências da Câmara e do Senado. A cada dia, são publicadas notas sobre adesões e traições de lado a lado. O que não faltam são intrigas. Colocando nosso olhar sobre a disputa na Câmara, percebe-se que as duas candidaturas mais fortes têm uma diferença evidente. De um lado, um candidato explicitamente apoiado pelo governo federal e, de outro, um que procura centrar seu posicionamento na defesa da independência do Legislativo frente ao Executivo.

É claro que o poder de fogo do Palácio do Planalto é muito grande, particularmente, na possibilidade de promover nomeações, exonerações, liberação de emendas. Diante disso, parlamentares das mais diferentes legendas se movimentam levando em conta seus interesses eleitorais imediatos. Esse tem sido o jogo jogado desde o início da redemocratização do país há 36 anos e, ao que tudo indica, deverá ser o critério a prevalecer na decisão de voto da maioria.

Posto isso, gostaria de trazer à baila uma indagação: devemos considerar que tal situação é inexorável ou há possibilidade de mudarmos a maneira de fazermos política no país? Sei que a resposta não é fácil, mas acho que devemos tentar.

Na última década, fomos surpreendidos pelo crescimento do nacional populismo em países com democracias representativas bastante consolidadas. Tal movimento chegou a países periféricos, como o Brasil, onde a democracia política é mais recente. Além disso, em países asiáticos e do leste europeu vimos o surgimento de gigantescos movimentos cívicos que levaram ao poder representantes eleitos com base na defesa de um Estado democrático, mas que, tempos depois, romperam com esse compromisso. O caso mais emblemático é a Turquia.

Parece-me evidente que a manutenção do crescimento do nacional populismo no mundo, neste século, vem ancorada em ideólogos cujas crenças e valores remontam ao período anterior ao Iluminismo. Recentemente, o pesquisador norte-americano Benjamin Teitelbaum lançou o livro Guerra pela eternidade, baseado em mais de 15 meses de pesquisa e entrevistas com ideólogos conservadores Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin, este último conselheiro do presidente russo Vladimir Putin.

Na obra, ele traz importantes elementos para demonstrar que a cruzada em curso contra valores modernos e democráticos deve ser identificada como “tradicionalismo”. Os seguidores dessa doutrina acreditam que a humanidade vive o final de um longo ciclo de declínio, que precisará ser concluído com destruição e renascimento. Para eles, tal declínio é marcado pela perda do conhecimento verdadeiro da religião e pela imposição de uma nova ordem social que torna o mundo massificado e secularizado. Segundo o autor, soma-se a isso uma motivação espiritual, religiosa, para o que poderia ser simplesmente uma agenda política do populismo antiglobalista e antiprogressista.

Portanto, fica claro que eles se unem em torno de um propósito bem definido e fazem a multiplicação de suas crenças usando com competência as redes sociais. No Brasil, parece-me evidente que os setores democráticos e progressistas foram, aos poucos, abandonando a ideia de atuação política baseada em propósito (não confundir com ideologia). Em seu lugar, passaram a agir levando em conta, exclusivamente, o pragmatismo. É a realpolitik, justificam. Porém, quando acordaram, o país tinha sido contaminado por visões retrógradas. Resta saber se, como sociedade, teremos capacidade de fazer um resgate ou se estaremos definitivamente entregues à lógica expressa no ditado que dá título ao artigo. Vai vendo...

O Brasil e o Prêmio Nobel

SILVESTRE GORGULHO Jornalista e ex-secretário de Estado de Cultura de Brasília

O Brasil ganhou cinco Copas do Mundo. Mas nunca ganhou um Prêmio Nobel. O Brasil ganhou oito campeonatos de Fórmula Um. Mas nenhum Nobel. Nunca ter recebido um Prêmio Nobel, a maior honraria científica, cultural, literária e tecnológica do mundo, significa que o Brasil é um excluído na área do conhecimento humano? Não é bem assim.

Vários brasileiros são reverenciados por suas invenções e trabalhos: o mineiro Alberto Santos Dumont (1873-1932) inventou o avião. O padre gaúcho Roberto Landell de Moura (1861 -1928) foi pioneiro na transmissão da voz humana sem fio. A abreugrafia é brasileira, inventada pelo médico paulista Manuel Dias de Abreu (1894-1962), que propiciou o diagnóstico de doenças como a tuberculose. O eletrotécnico mineiro-brasiliense Nélio José Nicolai (1940-2017) criou um sistema que permitia identificar chamadas de telefone. O padre paraibano João Francisco de Azevedo (1814-1880) teve a ideia de adaptar um piano de 24 teclas para que pudesse imprimir letras em papel. A Remington comprou a ideia e passou a fabricar a máquina de escrever.

O imunologista Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865-1950) criou o soro antiofídico. O médico e sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), pioneiro no estudo das moléstias tropicais, quase chegou ao Prêmio Nobel. Os Irmãos Villas-Bôas, Orlando, Leonardo e Cláudio — por sinal, meus padrinhos de formatura na UFMG/1972 — chegaram a ser indicados ao Nobel da Paz pela defesa incontestável da causa indígena e criação do Parque do Xingu. Falou-se muito, também, num Nobel de Literatura para Guimarães Rosa (1908-1967) que revolucionou a literatura brasileira e provocou a atenção das elites intelectuais do mundo. Mas, mesmo assim, com histórico tão favorável à Humanidade, o Prêmio Nobel nunca chegou ao Brasil.

Apremiação, concedida por méritos, foi dada 817 vezes a indivíduos e a 23 organizações. No placar de premiações, o Brasil perde feio. Para a Argentina, de 5 x 0. O país mais premiado com o Nobel é os Estados Unidos com 369 laureados. Portugal tem dois Nobel (António Egas Moniz e José Saramago). O Chile tem dois (Gabriela Mistral e Pablo Neruda), e o Peru tem um (Vargas Llosa).

Para 2021, o ex-ministro da Agricultura do governo Geisel (1974-1981) Alysson Paolinelli é o primeiro indicado para o Nobel da Paz. Seu nome acaba de ser protocolado no The Norwegian Nobel Committee. A indicação partiu de várias entidades, capitaneada pelo diretor da Escola Superior Agricultura Luiz de Queiroz, professor Durval Dourado Neto, e pelo ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio na Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV) e embaixador especial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para as Cooperativas.

Com qual justificativa? Simples: Paolinelli abriu caminho para a saída do Brasil e dos países tropicais da dependência alimentar. Graças ao seu trabalho, hoje, o Brasil é o líder mundial nas tecnologias de produção da agricultura e pecuária tropical que salva os países situados nas regiões equatoriais e tropicais do planeta — quase sempre as mais pobres. Como o Brasil conseguiu fazer essa Revolução Verde Tropical? Porque deixou de ter a mentalidade de colônia para procurar resolver seus problemas com as próprias mãos.

Paolinelli entendeu e provou que, diferentemente do setor industrial, a produção de alimentos tem características distintas de um lugar para outro. Fabricar um produto industrial é simples. Paga-se royalties e faz igual. Ou importa-se um carro, coloca-se uma equipe de engenheiros especializados, desmonta-o e reproduz cada peça.

Na agricultura, não é assim. Uma coisa é fazer agricultura no hemisfério de clima temperado, em terras férteis, onde a neve elimina a maioria das pragas e ainda irriga o solo pelo degelo. Outra coisa é fazer agricultura sustentada em terras tropicais. O solo precisa ser corrigido; sementes adaptadas; há de fixar o nitrogênio no solo, fazer o controle biológico de pragas, ajustar condições de plantio e colheita. Não há como copiar.

O norte-americano Norman Borlaug (1914-2009) Nobel da Paz de 1970, deu o grande passo para garantir a paz no mundo, produzindo alimentos em quantidade e qualidade no Hemisfério Norte. Como Borlaug, Alysson Paolinelli não é filósofo, nem líder comunitário e muito menos ativista. Ambos, profissionais da agronomia e da biologia vegetal, souberam lutar para melhorar a produtividade na agricultura. Borlaug ganhou o Nobel da Paz por ter feito a Revolução Verde nos países de clima temperado. Paolinelli merece o Nobel por ter feito a base para o Brasil ocupar a dianteira do desenvolvimento agropecuário no clima tropical. A Revolução Verde Tropical salvou o Brasil da fome. E salvará o mundo. A pandemia deixa a grave e derradeira lição: sem comida não há paz.

Visto, lido e ouvido

Desde 1960 Circe Cunha (interina) // circecunha.df@dabr.com.br

Filhos dos degredados

Neste país surreal, é possível reconhecer que cada governo entrante corresponde a uma ou mais crises específicas que, em última análise, acabam por definir e dar forma e caráter a ele. É assim que seguimos nossa jornada desde 1500. Talvez, exista aí, nessas atribuladas governanças do homem branco, algum Oremú ou urucubaca lançada pelos primeiros habitantes dessa terra, traídos e ameaçados, contra os invasores europeus. Somente pelo viés das superstições é que se pode encontrar uma explicação inteligível para o fato dessa sequência ininterrupta de governos e suas respectivas crises, sejam elas institucionais, políticas, econômicas, sociais ou de saúde — pública ou pessoal.

Há aquele cidadão que acredita também numa revanche espiritual, vinda do além, da família imperial, usurpada do poder por um golpe de Estado, dado por meia dúzia de oficiais traidores, que, na madrugada de 15 de novembro de 1889, prendeu toda a família no Paço, mandando-a ao Velho Continente. Primeiro, a bordo do cruzador Parnaíba até a Ilha Grande, onde todos embarcaram durante uma tempestade, no paquete avariado Alagoas rumo ao exílio forçado na Europa.

Com a advento da República, o que menos podemos afirmar é que o Brasil encontraria, finalmente, um período de estabilidade política. De lá para cá, o que se viu foi uma sucessão de trapalhadas e uma sequência insana de pequenos golpes intramuros que, ao fim e ao cabo, definiu o que somos hoje. A substituição brusca de um imperador culto e apaziguador por militares semialfabetizados e com ímpetos absolutistas de um monarca deu no que deu. Com uma movimentação institucional dessa natureza, nada podia dar certo. Sem mencionar o período após 1964, que, verdadeiramente ajudaria o Brasil a se afastar da área de influência ideológica da União Soviética, e que, depois, tomaria outros rumos e descaminhos, e que alijou uma geração de brasileiros ilustres e providenciais, com expurgos e outras medidas desproporcionais, o que se viu após o retorno da democracia, em 1984, fala por si.

Crises seguidas, projetos e programas políticos desastrados e uma espécie de institucionalização da corrupção em toda a máquina do Estado. A falta de cultura e de escolarização do povo e das autoridades, aliada à existência de um sem número de estatais, e outras sinecuras sem razão de ser, além de outros fatores, como a cegueira providencial da justiça em relação aos poderosos, conduziram-nos ao ponto nebuloso em que nos encontramos hoje. Passados tantos séculos de estripulias e desavenças, o que vemos a partir de nossa janela confirma que nada aprendemos ao longo desse tempo todo.

Mergulhado no que talvez seja sua maior crise, pelo menos na área sanitária ou de saúde pública, está na hora de o país acender uma vela para D. Pedro II, pedindo misericórdia, e outra para os indígenas, ainda perseguidos, pedindo arrego.


A frase que foi pronunciada

“A morte revela da vida uma faceta que ela esconde e que a morte traz à tona e permite celebrar. É como se a morte possuísse o segredo da vida, como se este segredo contivesse a verdade explosiva.”
Augusto Contador Borges, no artigo Georges Bataille: Imagens do êxtase


Educadores
Importante suporte para os profissionais da educação participarem da quinta edição da Semana Pedagógica. Capacitação gratuita prepara educadores para os novos desafios do retorno às aulas. Veja os detalhes desse encontro no Blog do Ari Cunha. O que é e como se inscrever. Começa em 30 de janeiro e vai até 7 de fevereiro.


Empresários
Abertas inscrições de cursos que vão potencializar empresas do DF. São 500 vagas gratuitas, 30 cursos com 200 aulas ministradas por 16 consultores do Sebrae. O anúncio foi feito pela Agência Brasília. Detalhes no Blog do Ari Cunha.


Bem comum
Pessoal do Oca do Sol recebeu o troféu Experiências Acessíveis, uma premiação da Secretaria de Turismo GDF. O projeto Ecotrilhas foi classificado em segundo lugar dentre as iniciativas de destaque no turismo 2020.O prêmio foi dedicado às pessoas com deficiência e à comunidade da Serrinha. Laureados também Caminhos do Planalto Central e Grupo de Caminhadas de Brasília.


Agenda positiva
Com antecipação, o GDF limpou inúmeras galerias de águas pluviais, lixo espalhado por pessoas sem consciência coletiva, buracos em diversas localidades. Há que se elogiar quando merecido. As árvores que caíram com a última chuva foram todas recolhidas em pouco tempo.


História de Brasília

Os ministros estão impossibilitados de determinar a abertura de inquérito contra funcionários que recebem “dobradinha”, moram no Rio e tem apartamentos em Brasília, porque os principais implicados são, precisamente, os mais altos funcionários desses Ministérios.
(Publicado em 25/01/1962)

 

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