IDEOLOGIA

O negacionismo estrutural

''O negacionismo estrutural afirmado do alto visa precisamente a destruir a busca racional da verdade como fundamento da vida coletiva, tornando impossível o diálogo entre os diferentes''

» CHRISTIAN EDWARD CYRIL LYNCH Professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade
postado em 11/02/2021 06:00 / atualizado em 11/02/2021 08:48
 (crédito: Gomez)
(crédito: Gomez)

Fala-se muito em negacionismo, a respeito da condução da política sanitária pelo governo federal. Mas o fenômeno não se limita a esse ramo da administração. Entendido como técnica de governo destinada a produzir uma realidade fictícia, na qual possa esconder sua incompetência, o negacionismo do governo Bolsonaro é geral ou estrutural. Esse negacionismo estrutural cria uma realidade paralela, em que vige um sistema diferente de causalidades e responsabilidades daquele do mundo verdadeiro.

Do ponto de vista ideológico, a origem desse negacionismo é tipicamente reacionária, porque, pretendendo recuar para um tempo desaparecido, começa por ter de negar postulados básicos da racionalidade moderna na descrição do funcionamento do mundo. Para se infiltrar na sociedade, ele carece de atacar a imprensa, a ciência e a academia, que são as instâncias responsáveis pela geração de consensos sociais sobre o que seja a verdade no mundo moderno.

A base da democracia é a ideia de progresso baseado no equilíbrio instável entre autoridade, liberdade e igualdade. A modernidade é orientada pela noção de uma sociedade civil mais ou menos homogênea, que se manifesta por meio da opinião pública, para acima das diferenças parciais. A base da opinião pública radica naquelas três instâncias capazes de gerar consensos amplos sobre o que seja a verdade e o que definem o perímetro dentro do qual é possível divergir.

O negacionismo estrutural afirmado do alto visa precisamente a destruir a busca racional da verdade como fundamento da vida coletiva, tornando impossível o diálogo entre os diferentes. Ele nega a relativa homogeneidade da nação e busca dividi-la entre amigos e inimigos inconciliáveis. Trata-se de pensar a divergência política não como um antagonismo regulado por procedimentos, mas como guerra aberta, que exige suspensão da normalidade democrática e recursos excepcionais de segredo de Estado. A produção da verdade passa a ser um recurso de Estado, que passa a responsabilizar tudo o que de mal ocorre ao demônio, à natureza ou a seus inimigos.

Na prática, não há bobos nem inocentes nessa história. O negacionismo estrutural foi desenvolvido, deliberadamente, pelos radicais reacionários para encobrir pela desinformação, o que eles produzem de mais ruinoso e contraditório. O importante é conciliar o inconciliável. Conciliar um governo eleito com a bandeira da ética com o que a classe política possui de mais apodrecido, sob a promessa de aparelhamento administrativo e blindagem da máquina pública. Ou conciliar a ideia de um governo eleito sob a bandeira da desestatização com a decisão de reestatizar, no meio de uma pandemia, rodovias há décadas sob o regime de concessão, colocando-as sob a responsabilidade do Dnit, como se estivéssemos no regime militar. Onde está a coerência?

Para acobertar a contradição e a incoerência, o fracasso e o absurdo, é que se presta o negacionismo estrutural empregado pelo poder. Por isso, atacam a imprensa, a ciência e a academia. Do púlpito dos padres ultramontanos, o reacionarismo clássico do século 19 prometia aos seus adversários o mármore do inferno. O fascismo do século 20 também soube usar o cinema e o rádio para difundir seu próprio negacionismo. Hoje, as mentiras negacionistas são difundidas pela mesma violência por meio das redes sociais. A democracia, baseada na ideia de progresso, precisa aprender a se reciclar para adquirir anticorpos contra o vírus do negacionismo estrutural.

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