Os famintos que esperem

''E o Congresso, então? Nos meses finais de 2020, não deu andamento às pautas econômicas porque estava concentrado na disputa de poder, na queda de braço pelos comandos da Câmara e do Senado. Sem avanço nas votações, saiu de recesso, pois, afinal, suas excelências precisavam descansar. Já neste início de ano, com as eleições nas Casas definidas, o primeiro projeto aprovado foi o que garante a autonomia do Banco Central! É impressionante o descaso''

Cida Barbosa
postado em 18/02/2021 06:00 / atualizado em 18/02/2021 08:43

A demora em definir a retomada do auxílio emergencial é de uma perversidade ímpar. Famílias inteiras, inclusive crianças, sofrem a falta de comida no prato, mas a urgência dos famintos não sensibiliza os que estão de barriga cheia.

Na pandemia que exacerbou a crise econômica e fez minguar os empregos, quem depende do socorro do Estado para a subsistência assiste, impotente, ao Executivo e ao Legislativo priorizarem seus próprios interesses.

Todos com poder de decisão sabiam que o auxílio emergencial acabaria em dezembro, mas nada fizeram para amparar os mais necessitados. Lembro-me de o ministro da Economia, Paulo Guedes, dizer, em novembro, que o benefício seria extinto, diante do recuo dos casos da covid-19 no país. Se houvesse uma segunda onda — enfatizou ele —, o governo estaria preparado para reagir, pois já sabia o nome dos beneficiários que realmente precisavam da ajuda.

Na época, a Europa já vivia a segunda onda. Por que, então, a confiança de Guedes de que justo o Brasil deixaria a tragédia para trás, não veria o recrudescimento da crise sanitária? Foi respaldada, talvez, pelas medidas bem-sucedidas adotadas para frear o vírus ou pela celeridade do governo em garantir a compra de vacinas? Opa, o país não fez nem uma coisa nem outra.

E mais: se o governo estava preparado, em novembro, para “reagir”, por que, até agora, não houve a recriação do benefício? ‘Ah, não tem fonte de financiamento’. Como disse, ao Correio, Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, não é crível um país que gasta R$ 1,5 trilhão por ano não ter onde cortar despesas.

E o Congresso, então? Nos meses finais de 2020, não deu andamento às pautas econômicas porque estava concentrado na disputa de poder, na queda de braço pelos comandos da Câmara e do Senado. Sem avanço nas votações, saiu de recesso, pois, afinal, suas excelências precisavam descansar. Já neste início de ano, com as eleições nas Casas definidas, o primeiro projeto aprovado foi o que garante a autonomia do Banco Central! É impressionante o descaso. Veja a prioridade, num país com milhares de mortes pelo novo coronavírus e com gente passando necessidade! Agora, ainda teve nova paradinha, para o carnaval. Este é o nosso Brasil. Quem liga para o clamor de desesperados? Os famintos que esperem. 

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