Visão do Correio

Punição ao desvario

''Não há tempo para se perder com quem não respeita a democracia''

Correio Braziliense
postado em 19/02/2021 06:00 / atualizado em 19/02/2021 08:37

“Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada (...)”. Esses inquietantes versos pertencem ao longo poema No caminho, com Maiakóvski, do poeta e artista plástico fluminense Eduardo Alves da Costa, radicado em São Paulo, que fará 85 anos em 6 de março. Foram compostos em 1968, às vésperas do Ato Institucional nº 5 (AI-5) — o mais duro instrumento do regime militar iniciado em 1964 —, e se transformou em bandeira de resistência, inclusive de movimentos estudantis. E nos anos 1980 esses versos também foram estampados em camisetas da campanha das Diretas Já.

Mais de meio século depois, esse poema permanece atualíssimo por causa de ameaças à democracia. Como se viu recentemente nos Estados Unidos (EUA), onde se acreditava que era inabalável, até os conturbados últimos dias da era de Donald Trump na Casa Branca. E é possível também fazer analogia dos versos que arrancam a nossa voz da garganta com o desatino do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), preso pela Polícia Federal depois de fazer graves ameaças aos ministros do Supremo Tribunal Federal. Suas palavras, ultrajantes, não podem passar incólumes.

Usando um velho clichê, é preciso cortar o mal pela raiz, neste caso, o extremismo do parlamentar e de outros radicais. Se as instituições se calarem, podem ganhar força os ataques à democracia que vêm sendo registrados em diversos países nos últimos anos. Em situações extremas, vale lembrar de momentos decisivos da história do século 20, com exemplos gritantes de como a omissão e a indiferença de governos e sociedades custaram a liberdade. O maior de todos é o nazifascismo que emergiu na Alemanha a partir de 1918, na pele de um obscuro cabo da Primeira Guerra Mundial chamado Adolf Hitler. Tratado com galhofa, ele moveu multidões e o trágico resultado da sua histeria é muito bem conhecido.

Sobre essa triste página da história da humanidade foi construída uma obra-prima do cinema chamada O ovo da serpente, lançada pelo cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), em 1977, com David Carradine e Liv Ullmann. A história se passa em Berlim, em 1923. O protagonista é Abel Rosenberg, trapezista judeu desempregado que vai a Berlim tentar descobrir porque seu irmão, Max, se suicidou. Ele, então, encontra Manuela, sua cunhada, que trabalha como corista numa boate e, juntos, sobrevivem com grandes dificuldades sob a crescente recessão econômica que assola a Alemanha após a Primeira Guerra. Sem compreender com clareza as profundas transformações políticas em andamento, eles vão trabalhar numa clínica e descobrem uma série de experimentos com seres humanos em meio à ascensão nazista. O sistema político falido, a fome, a miséria, a hiperinflação e a violência estouram, um ambiente propício para a incubação do “ovo da serpente” do nazismo, com o surgimento de falsos salvadores egocêntricos, racistas e preconizadores de discurso de ódio. Ninguém fez nada, e o ovo gerou a serpente do nazismo.

Exagero fazer paralelo com os dias atuais? Não necessariamente. A tolerância com o discurso de extremistas como o deputado e outros que vêm estimulando atos antidemocráticos precisa ser coibida, porque acaba servindo de incentivo para outros. O totalitarismo tem várias caras e vários nomes. Por isso, é preciso que o responsável pelas ameaças receba punição à altura de seu desvario. E que o caso seja logo superado, para que o Congresso possa voltar a se dedicar aos seus temas prioritários, elencados pelos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e Câmara dos Deputados, Arthur Lira: a aprovação de um novo auxílio emergencial para os que perderam a renda com o impacto do coronavírus e o avanço com as reformas, tão necessárias para que o Brasil volte a trilhar o caminho do desenvolvimento. Não há tempo para se perder com quem não respeita a democracia.

Vergonha sem fim

A pandemia do novo coronavírus segue repleta de atos que envergonham qualquer cidadão. Depois das centenas de fura-filas no processo de imunização denunciados em todo o país, que motivaram a abertura de investigação formal por parte do Ministério Público, chegou a vez de ficarmos em estado de choque com as situações de falsa aplicação da vacina. Já são quatro casos registrados e em apuração em três diferentes estados: Rio de Janeiro, Goiás e Alagoas.

Sinto vergonha alheia quando vejo vídeos com as denúncias nas redes sociais. Não é só apenas um atentado à saúde. É um crime contra pessoas em situação de vulnerabilidade ao vírus. Trata-se de uma situação esdrúxula. Sem sentido nenhum. Veja bem o que disse uma das profissionais flagradas no Rio. Ao ser confrontada pelo delegado sobre o que a levou a fazer isso, a técnica de enfermagem disse não saber “explicar a razão de não ter pressionado o êmbolo da seringa”. Perdeu o emprego e vai responder por infração de medida sanitária e peculato culposo.

Não consigo entender qual o ganho de quem age de tal forma. A ideia é aplicar a dose na surdina em outra pessoa? Ou vai jogar fora? Para complicar ainda mais a investigação, se o autor do crime não confessar, jamais será possível saber se ficou naquela falsa aplicação ou se repetiu o comportamento em outros que deveriam receber o imunizante. Sem contar que há a possibilidade de idosos ou outros integrantes dos grupos prioritários pensarem que foram vacinados e, na prática, não.

Logo no início do surgimento dos primeiros casos do novo coronavírus, o presidente do Insper, Marcos Lisboa, deu uma entrevista em que afirma que a “pandemia opõe o Brasil solidário ao oportunista”. Verdade maior não há. Exemplos temos aos montes de pessoas físicas ou jurídicas que, valendo-se de regras emergenciais, aproveitaram-se do caos econômico e social instalado para obterem vantagens contratuais, mesmo sem qualquer alteração em suas condições financeiras. A conta ainda nem chegou, mas já começamos a pagar. E tenho receio de que há a possibilidade de agravamento da crise sanitária. Vamos ver.

Sr. Redator

Cartas ao Sr. Redator devem ter, no máximo, 10 linhas e incluir nome e endereço completo, fotocópia de identidade e telefone para contato. E-mail: sredat.df@dabr.com.br

Daniel Silveira
O deputado federal Daniel Silveira (PSL), conhecido por ter quebrado placa que homenageava Marielle Franco, manifestou-se de forma acintosa, via YouTube, ameaçando o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso e a própria democracia, clamando por um novo AI5. Foi imediatamente preso em flagrante por ordem do ministro Alexandre de Moraes. Aguarda decisão do Legislativo, que poderá manter ou suspender a prisão do infrator, que, reiteradas vezes, afrontou as mais básicas normas da Constituição Federal. A União Brasileira de Escritores(UBE), no atributo de suas prerrogativas estatutárias, que a posicionam sempre, intransigentemente, em favor das liberdades democráticas, manifesta-se em apoio às instituições ofendidas, exigindo punição exemplar do responsável. Não podemos aceitar, e não aceitaremos quaisquer posicionamentos que ameacem nossa jovem democracia.
Ricardo Ramos Filho, Presidente daUBE


» O deputado Daniel Silveira (PSL - RJ) cometeu crime inafiançável ao se insurgir contra a democracia e ao incitar pela volta do AI-5. Ele será certamente julgado e cassado, uma vez que seus pares não querem a volta da ditadura, quando o então Congresso ficaria com sua função prejudicada. O flagrante do delito foi indubitável, o referido deputado estava trocando ideias com seus seguidores, quando foi flagrado pelo ministro Alexandre de Moraes. Ele se insurgiu contra um poder constituído (STF) ao pedir a destituição de seus ministros. O radicalismo manifestado é inaceitável.
Enedino Corrêa da Silva, Asa Sul


» O filho do presidente Bolsonaro e vereador do Rio Janeiro,Carlos Bolsonaro, disse ter sentido “ânsia de vômito” com a prisão do extremista Daniel Silveira, deputado federal pelo PSL-RJ, que afrontou o Supremo Tribunal Federal e seus ministros e de forma enfática defendeu reinstituição do Ato Institucional nº 5, que arregaçou o país para a torturna e morte dos que divergiam e se opunham à sanguinária ditadura militar. Mas só ele teve ânsia de vômito. A maioria dos brasileiros que sobreviveu ao regime e assistiu à deplorável gravação do ilustre desconhecido e inútil parlamentar também sente o estômago revirar. O palavreado do deputado é vergonhoso e mostra o quanto a sociedade tem de amadurecer para eleger seus representantes. Não é por acaso que gente tão desqualificada consegue assento no Congresso Nacional. O lugar de extremistas doentes e sanguinários, que se opõem à democracia, é na cadeia. E viva a democracia!
Benjamim Costa, Vila Planalto


Pressão
O ministro do STF, Edson Fachin, afirmou que é “intolerável e inaceitável qualquer forma ou modo de pressão antijurídica sobre o Poder Judiciário”. Entretanto, o mesmo ministro não vê quaisquer problemas na pressão antijurídica do Poder Judiciário sobre os demais Poderes, como a pressão do próprio STF sobre o Legislativo, na questão da escolha da presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Segundo diversos meios de comunicação, vários ministros do STF enviaram recados (leia-se “ameaças”) à cúpula do Congresso, informando que a indicação da deputada Bia Kicis (PSL-DF) à Presidência da CCJ da Câmara seria uma declaração de guerra à Corte. A propósito, essa pressão do STF sobre a Câmara dos Deputados é crime de responsabilidade, nos termos do art. 4º, Inciso II da Lei 1079/50 (atentado contra o livre exercício do Poder Legislativo). Vejamos como a nova cúpula do Congresso Nacional agirá contra os desmandos do STF e processos contra os seus ministros.
Milton Córdova Júnior, Vicente Pires


Laicismo
Apesar da minha falta de empatia com assuntos religiosos, não pude deixar de espantar-me com a notícia que li no Correio de que analistas políticos calculam que 20 mil católicos fundamentalistas votaram em Bolsonaro, enquanto ele levantar a bandeira contra o aborto e ativistas de gênero. Lembrem-se que ele visitou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sendo recebido com pompas. O mesmo ocorreu em Aparecida, onde teve o desplante de comprar uma imagem, o que indignou muitos evangélicos. Foi também adular o arcebispo do Rio (mais rapapés). Na época do Geisel [general Ernesto Geisel, ex-presidente do Brasil] foi instituído o divórcio e os católicos se omitiram. Covardemente. O laicismo está prontinho para a lata de lixo. Falta pouco para virarmos xiitas.
Renato Vivacqua, Asa Norte


Auxílio
O governo pode e deveria criar uma conta exclusiva para pagamento desse auxílio emergencial, destacada do orçamento geral e que fosse abatida, paga, com um prazo bastante alongado . Os recursos para esta conta poderiam vir do Tesouro Nacional, ou mesmo com a emissão de valores específicos para se pagar o auxílio. Em paralelo à medida, teriam de ser excluídas as mordomias, prerrogativas e penduricalhos nos Três Poderes e na cúpula militar. É inadmissível que se pague auxílio wi-fi para juízes, auxílio-paletó, gasolina, carro, avião, motorista para as autoridades quando estamos em pandemia e até mesmo em períodos normais. O corte dessas despesas, sem dúvida, seria suficiente para pagar o auxílio aos mais necessitados .
Washington Luiz Souza Costa, Samambaia

 

 

 

Desabafo

Pode até não mudar a situação, mas altera sua disposição

Polícia investiga simulação de aplicação de vacina da covid-19. Peculato de vacina de vento?
José Matias-Pereira — Park Way


A falsa glória do presidente durará mais dois anos. Seu opróbrio ficará para a história.
Eduardo Pereira — Jardim Botânico


À medida que se aproxima 2022, Bolsonaro quer vacinar toda a população, nem que seja à bala.
Vital Ramos de V. Júnior — Jardim Botânico


O novo técnico Hernán Crespo já deu a entender que não vai “alisar” os jogadores do São Paulo.
Ivan T. de Pinho e Silva — Asa Sul


Incompatibilidade: Centrão cria Comissão de Ética.
Joaquim Honório — Asa Sul

 

Charge

 (crédito: Kleber)
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