Opinião

O último lampejo de ousadia

Marcos Paulo Lima
postado em 20/02/2021 08:07 / atualizado em 20/02/2021 10:39

O Brasileirão não acabou, óbvio, mas a possibilidade de o Internacional conquistar o título amanhã contra o Flamengo, no Maracanã, deixa uma pulga atrás da orelha da concorrência: por que o Colorado lidera?

Abel Braga entendeu que a temporada foi atípica. Não demanda futebol bonito nem a excelência do Flamengo de 2019. Isso tem sido impossível no mundo inteiro em meio ao pânico causado pela pandemia.

Ao topar a missão de suceder Eduardo Coudet, Abel percebeu que o Brasileirão 2020 favorecia muito o estilo básico dele. Abel repaginou o Inter sem obrigação de reinventar a roda ou emular Eduardo Coudet. Abel notou a necessidade de regularidade. O Inter venceu nove jogos consecutivos e empatou três na série invicta de 12 partidas. Com direito a 5 x 1 sobre o São Paulo.

Enquanto os concorrentes inventavam moda, Abel simplificava. O Brasileirão da pandemia, com baixo nível técnico e calendário maluco, indicou que seria assim. Abel só precisava resgatar a melhor versão de Abel. A do Inter campeão da Libertadores e do Mundial em 2006. Do tetra do Fluminense em 2012. Conseguiu.

Quem quebrava a cabeça para jogar bonito, como Fernando Diniz e Jorge Sampaoli, ficou pelo caminho. Resta Rogério Ceni para vetar o título antecipado de Abel.

O técnico desembarcou no Flamengo obcecado por fazer o atual campeão jogar como na era Jorge Jesus. Desistiu. O time tem pitadas de Juan Carlos Osorio. O colombiano inspira o ex-goleiro. Foi técnico dele no São Paulo. Daí as ideias ousadas de Willian Arão na zaga e Diego no papel de volante. Não há nada de inovador no Inter de Abel, mas a sensibilidade do treinador para entender que o Brasileirão do novo normal nunca combinou tanto com o estilo dele. Isso não ofusca o brilho do Inter, líder desta edição em 16 rodadas. Longe disso.

Mas se alguém pode deixar legado é Rogério Ceni. Pondero: ele tem elenco para isso. Caso seja bi consecutivo, o que não acontece desde a era Zico nos títulos de 1982 e 1983, o Flamengo chegará ao troféu com formação mais ousada que a de Jorge Jesus. Não há volante. Do meio para a frente jogam: Diego, Gerson, Everton Ribeiro, Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique. O último lampejo de ousadia sobrevive no Brasileirão mais do mesmo.

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