Visão do Correio

Intervenção não é solução

Correio Braziliense
postado em 24/02/2021 06:00 / atualizado em 24/02/2021 08:52

Uma turbulência, por mais forte que seja, pode até mudar um avião de rota, mas não costuma derrubá-lo. A analogia serve para explicar a reação do mercado financeiro desde a sexta-feira, depois da decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de não reconduzir o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, e substituí-lo pelo general da reserva Joaquim Silva e Luna. No voo cego em busca de recuperar a popularidade perdida, Bolsonaro dá a entender que a mudança pode representar redução nos preços dos combustíveis, sobretudo o do óleo diesel, que, reajustado, inflama os ânimos dos caminhoneiros. Bolsonaro pode até trocar o presidente da Petrobras, mas não tem como segurar o valor dos derivados de petróleo nas refinarias sem que para isso tenha que lançar mão de recursos públicos, seja abrindo mão de impostos, seja sendo obrigado a cobrir prejuízos da estatal.

O estatuto da empresa determina o ressarcimento por parte do acionista majoritário, leia-se governo, no caso de a disparidade de preços entre o mercado internacional e o interno gerar perdas para a empresa. Além disso, desde o governo do presidente Michel Temer, a política de preços segue a paridade internacional com base nos preços do petróleo e no dólar. Em maio de 2018, quando os caminhoneiros pararam o país, o barril de petróleo estava acima de US$ 70 e o dólar valia R$ 3,70. Hoje, o petróleo está na faixa de US$ 65 e o câmbio em R$ 5,40. O diesel S-10, que custava em média R$ 3,69 em maio de 2018, é vendido hoje ao preço médio de R$ 3,875, conforme pesquisa da Agência Nacional de Petróleo (ANP) do último dia 13.

Os números mostram que, perto de se completar três anos da greve dos caminhoneiros que parou o país, o problema ainda não foi resolvido e a ameaça de paralisação dos transportes deixa o governo refém da categoria. O problema é mais complexo do que simplesmente trocar o presidente da Petrobras, e essa simples mudança não altera o quadro. Caso zere os impostos sobre o diesel e o gás de cozinha por dois meses, como prometeu, o presidente Bolsonaro abrirá mão de uma receita de mais de R$ 5 bilhões, num momento em que faltam recursos para prorrogar o auxílio emergencial. Temer teve que arcar com R$ 6,7 bilhões do Tesouro Nacional para subsidiar o diesel e evitar reajustes na bomba.

Essa é uma equação na qual a melhor fórmula é o bom senso. É preciso preservar a Petrobras para que ela tenha capacidade de investir e atender à demanda brasileira e dê retorno para os investidores, mas não se pode querer que o estado subsidie preços e muito menos que os consumidores e caminhoneiros tenham que arcar com essa conta. Uma intervenção pura e simples, sem que se analise todos os fatores envolvidos, de custos de produção à logística, passando pela facilidade e eficiência na arrecadação de impostos estaduais e federais, vai apenas postergar mais uma vez o problema. Há que se buscar um ponto de equilíbrio entre a necessidade de retorno dos investidores, de caixa da estatal e sua cadeia logística, dos cofres públicos e do bolso dos consumidores. O preço justo não surge quando uns ganham muito e outros pagam tudo.

 

 

Eterno Zé Kéti

Não falta quem afirme que o Brasil é um país sem memória. Tendo a me juntar aos que comungam desta retórica. Tomando como exemplo a história da música popular brasileira, é fácil perceber o esquecimento a que são relegados muitos dos artistas que tanto contribuíram para o enriquecimento da manifestação cultural de maior popularidade no país. Às vezes, um deles é lembrado e, quando isso ocorre, nada mais justo do que ressaltar — até com veemência.

O Correio vem dando ênfase, por exemplo, ao projeto Zé Kéti - 100 Anos da Voz do Morro, que, desde o dia 10 último, tem ocupado o palco do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Trata-se de uma justíssima homenagem a um dos maiores compositores de samba de todos os tempos. Na série de shows, vem sendo realçada a obra de José Flores de Jesus, carioca do bairro de Inhaúma, que deixou um legado de nada menos que 200 músicas, das quais, pelo menos 20 clássicos.

Zé Kéti, o nome artístico, vem do apelido recebido na infância, por ser um menino que, quietinho, se fazia ouvinte das rodas de choro promovidas em casa pelo avô João Dionísio Santana, com a participação, por vezes, de mestres como Pixinguinha e Cândido das Neves. A carreira do sambista teve início em 1940, como integrante da ala de compositores da Portela. Tio Sam no samba foi o primeiro samba gravado, em disco pelo grupo Vocalistas Tropicais. Já Amor passageiro, na voz de Linda Batista — estrela da era de ouro do rádio — viria a ser o primeiro sucesso.

Mas o que tornou Zé Kéti conhecido nacionalmente foi A voz do morro, interpretada, originalmente, por Jorge Goulart e lançado em 1955. O samba fez parte também da trilha sonora de Rio Zona Norte, filme de Nelson Pereira dos Santos, tido como precursor do Cinema Novo.

Em 1962, Zé Keti criaria o grupo A Voz do Morro, no qual tinha a companhia de Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro.

Depois de declínio na carreira, o compositor chegou a cair em esquecimento. Voltou a ser lembrado com homenagem perpetrada pela Portela e ao receber o Prêmio Shell, pelo conjunto da obra. Com dificuldades financeiras e amparado por familiares e amigos, morreu em 14 de novembro de 1999.

 

 

Sr. Redator

Cartas ao Sr. Redator devem ter, no máximo, 10 linhas e incluir nome e endereço completo, fotocópia de identidade e telefone para contato. E-mail: sredat.df@dabr.com.br

Desmonte
Nossos ministros têm um quê de sinistros: o do Meio Ambiente é a favor das queimadas e do desmatamento; a da Agricultura é a favor dos agrotóxicos; o da Ciência e Tecnologia vive nas nuvens; a dos Direitos Humanos é contra as etnias indígenas, a lei de proteção às mulheres e contra as questões de gênero; o da Educação é a favor da vara; o da Cultura é contra a arte; o da Saúde não entende de vacinação; o da Economia só pensa em ferrar a povo; o das Relações Exteriores não se dá bem com outros países; o secretário da Fundação Palmares é contra os negros; todos juntos vão causando o desmonte federal da nossa nação...
Thelma B. Oliveira, Asa Norte


Ecografia
Submetido à ecografia, descobriu-se que o Brasil tem raiva, covid-19, anemia, rancor, gripe, estupidez, trombose, paralisia, esquizofrenia, reumatismo, raquitismo, disritmia, hipocrisia, miopia, culpa, e a democracia ainda pulsa.
Eduardo Pereira, Jardim Botânico


Manifesto
Um terraplanista pode até ser cômico. Mas médico negacionista é um perigo mortal. O Manifesto pela Vida (CB, 23/2, pág 3 e outros jornais), com sua ideologia definida pelo nome do grupo que o assina, vem pela contramão atropelando o bom-senso, a ciência e a vida. Ora, os pacientes submetidos ao kit covid sararam não por causa, mas apesar da intervenção incensada pelos defensores do tratamento precoce no Brasil. Será que esta guilda nunca ouviu falar em ensaio duplo-cego controlado e randomizado? Método que afasta a medicina da crendice e da superstição e a transforma em ciência. Em tempo: faltou na turma um revisor para evitar bobagens tipo “se posicionado-se”(segunda linha, penúltimo parágrafo). E uma pergunta final: o dinheiro gasto nesta publicação, meia página nos principais jornais do país, não teria sido melhor aplicado em pesquisa, compra de equipamentos etc? É... de onde saiu o dinheiro?
Ludovico Ribondi, Noroeste


Benevolência
O deputado distrital José Gomes, sem partido, foi cassado por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em outubro passado. Sua cassação deveu-se por abuso de poder econômico e um conjunto vigoroso de provas documental, testemunhal e pericial, em que o deputado coagiu funcionários da própria empresa a votarem nele nas eleições de 2018. Segundo a Procuradoria-Geral da República à época, todas as provas foram devidamente analisadas pela Justiça Eleitoral, tanto que o Ministério Público foi favorável à retirada do mandato do parlamentar. No entanto, mais uma vez, a sociedade se deparou com a benevolência conhecida do Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro Dias Toffoli, concedeu liminar, suspendendo os efeitos da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o deputado reassumiu o posto. O deputado está em pleno exercício do mandato, faltando apenas dois anos para o término desta legislatura. Entretanto, com a liminar concedida pelo ministro Toffoli, o processo permanece na gaveta, sem previsão de julgamento, sine die. Em suma, presume-se que o deputado terminará seu mandato, por meio de liminar oferecida pelo ministro concurseiro à magistratura, outrora reprovado em dois certames na primeira fase do concurso. Em tempo: o deputado José Gomes foi expulso do PSB por abuso de poder econômico.
Renato Mendes Prestes, Águas Claras


Estatatais
Quem afirmou que ações de estatais federais, ou não, estão isentas de quedas acentuadas na B3? As intervenções, ou melhor, as recomendações técnicas (rumo às melhorias de preços ou tarifas) partem do acionista majoritário — o governo federal, no âmbito da União — e, cabem, portanto, às respectivas diretorias elaborar estudos de viabilidades e implementar o melhor plano ao bem dos acionistas, da vitalidade progressiva da empresa, levando os bons resultados à população. Se a política de distribuição de preços for viável, em pouco ou médio tempo as ações voltarão a ser rentáveis e, na história, continuarão a marcar ótimas presenças de resultados sociais e econômicos nos mercados nacional e internacional. Há alarmes por aí como se o Poder Executivo estivesse fraquejando, ou a Petrobras caindo em abismos... Nada disso. Ora, ora... Empresa como esta, o BB e outras estatais de economias mistas (fortes) são testadas e aprovadas nos melhores testes de sustentabilidades econômicos do mundo!
Antônio Carlos Sampaio Machado, Águas Claras


Exemplo
Matéria veiculado no Correio (21/2, pág.2),com uma grande foto na Escola Preparatória de Cadetes (EsPCx) com Bolsonaro e 24 autoridades, entre eles, militares de alta patente e somente três com máscaras. Este é o mau exemplo que o presidente está dando ao Brasil, principalmente seus seguidores apaixonados e que são muitos. Em Rio Verde (GO), na entrada da Empresa Cargill, o técnico em enfermagem Valdivino Santos Silva pediu ao motorista da carreta que usasse máscara para entrar na empresa, ele se recusou e agrediu o Valdivino chamando-o de “urubu”. O Brasil ultrapassou a cifra de 246 mil mortes. Caso o príncipe presidente tivesse a humildade e, pelos meios de comunicação, aceitasse uma mea-culpa, dizendo a nação que errou e pedisse desculpa pelos seus arroubos quanto à pandemia, de não usar máscara, evitar aglomerações e sempre com mãos limpas, com certeza, o vírus circularia bem menos, evitando tanta comoção.
Hortêncio Pereira de Brito Sobrinho, Goiânia (GO)

Desabafo

Pode até não mudar a situação, mas altera sua disposição

Por causa da “perseguição” da imprensa e do STF, Bolsonaro promete continuar acabando com o Brasil
Vital Ramos de Vasconcelos Júnior — Jardim Botânico


Vacinação está sendo decisiva para a reabertura no Reino Unido. Aplausos para a ciência.
José Matias-Pereira — Park Way


Enquanto cresce o número de mortos por covid-19, mais o governo retarda a compra de vacinas. No DF, inquilino do Buriti segue o compasso federal.
Míriam Alves — Asa Sul


Mudanças no ordenamento sobre direitos humanos estão sob sigilo da fundamentalista Damares Alves. Mais desgraças virão
Joaquim Honório — Asa Sul

Charge

 (crédito: Kleber)
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