Opinião

Artigo: SIX e o choro em Brasília

Jacob do Bandolim tinha dois fãs em Brasília: Six e Arnoldo Velloso. Médico neurologista e bandolinista. O Neuro-Bandolim, recém-chegado da Alemanha.

Chico Varella*
postado em 01/03/2021 06:05
 (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)

Quatro dedos. Seis nas mãos e nos pés. O fenômeno se chama polidactilia. Advogado por profissão, hedonista por opção. Tinha dois propósitos: trabalho e gandaia, na ordem. O trabalho garantia a esbórnia. O conheci em rodas de choro. Bem antes do Clube do Choro. Nas tocatas dos bares. Exímio instrumentista. Seu cavaco tocava diferente. Era o sexto dedo.

Setembro de 1977. Um grupo de chorões, em reunião no apartamento da professora Odette Ernest Dias, fundou o Clube do Choro de Brasília. Primeiro Presidente, Avena de Castro. Citarista de fama nacional. Six estava nesta histórica reunião. O choro toma vulto. Por intervenção de Paulo Romano, assessor, o governador do DF, Elmo Serejo, doa o vestiário do Centro de Convenções. Primeira sede. O choro decola.

Pelas tantas, Six se elege presidente do Clube. E segue seis anos consecutivos. Foi a Era de Ouro do choro. Fui seu vice. As tardes dos sábados mudaram. O must da boemia: Clube do Choro. Ouvir ou tocar. Brasília tinha um acervo de grandes artistas. Funcionários públicos viviam na Capital do Brasil. O regime militar consolidou Brasília. Se firmou como capital federal. E do Choro.

Jacob do Bandolim tinha dois fãs em Brasília: Six e Arnoldo Velloso. Médico neurologista e bandolinista. O Neuro-Bandolim, recém-chegado da Alemanha. Souberam da doença do ídolo e foram para o Rio de Janeiro. Dona Adília, sua esposa, estranhou a visita de dois médicos de Brasília: um neurologista, o outro ginecologista (Six). A panaceia do Velloso funcionou. Em dois dias, os três saíram para uma tocata nas Noites Cariocas. Jacob viveu seis meses em Brasília, morando na Chácara Estrela Dalva, de Velloso. Volta ao Rio e morre, dois meses depois. Infarto fulminante.

A gestão do Six, primeiro, a Velha Guarda: Pernambuco do Pandeiro, Luizinho e Nilo, Sax; Tio João, Trombone de Vara; Bide, Flauta; Odette, Flauta; Walcy, Pandeiro; Aquino, Clarinete. Bambas, mais novos: Evandro Barcellos e Marcelo Picolé, Cavaco; Valério, Violão de 6; Alencar e Carlinhos do 7 Cordas, Violão de 7; Kunka e Ismar Barreto, Surdo; Lício e Dolores, Flauta; Reco do Bandolim, Bandolim (atual Presidente do Clube), Dois de Ouro – José Américo, Violão 6 e seus filhos (com 5 e 7 anos): Hamilton, Cavaco e César, Violão de 6.

O Governo Federal criou um Programa Cultural. Grandes artistas percorriam o País. Six fez do Clube a segunda opção para quem subiu em Brasília. Sem atentar à cronologia: Família Rabello (Rafael, Violão 7; Luciana, Voz e Cavaco; Maria, Voz); Moraes Moreira, Acordeon; Armandinho, Guitarra Baiana; Daniela Spelman, Clarinete; Guinga, Violão 6; Renato Borghetti, Fole Gaúcho; Rogerinho, Violão 7; Henrique Cazé, Cavaco; Nilze, Cavaco; Paulo Moura, Clarinete; Altamiro Carrilho, Flauta e Flautim; Rossini Ferreira, Bandolim; Waldyr Azevedo, Cavaco; Copinha, Flauta; Klecius Caldas, Voz; Mario Lago, Voz; Yamandú Costa, Violão 7; Abel Ferreira, Sax; Zé da Velha e Silvério Pontes, Trombone de Vara e Trompete. Que me perdoem os não citados.

Lutou por uma causa por 20 anos. Quase U$ 1 milhão de dólares. Sua vida mudou. Aloprou. Testemunhei. Vinte para ganhar, três para gastar. Fez peripécias. Fretou um Navio Gaiola e desceu o Rio Amazonas de Manaus a Belém. Chorões animavam a viagem. Nos seus sessenta anos, um palco profissional de 120 m2, completo: som e luz. Em sua casa. Às suas expensas, como na viagem de Manaus, os principais chorões do Brasil. Passagem aérea, hospedagem para as famílias. E cachê. Três dias de festa. César Farias, violão de 6, pai de Paulinho da Viola, Klecius Caldas, Zé da Velha e Silvério Pontes, entre as celebridades. Marcos Melo testemunhou e participou deste e de outro evento com Yamandú Costa. Uma tocata, numa tarde comum. Six alugou o andar com palco de um bar. Levou ele e mais dois músicos. Na plateia, Marcos Melo, eu e uma das suas amigas. Um sinal e a moça subiu ao palco. Levantou a manga de camisa e aplicou uma injeção de insulina. A música não parou. As titulares sabiam aplicar injeção de insulina. Era mandatório.

Quando adoeceu, hiperferritinemia. Proibido de beber. Um martírio. Cumpriu sua sina. Sua doença nos aproximou ainda mais. Fins de tarde me convocava à sua casa para conversas. Servia-me uísque. Eu bebia, ele olhava. Morreu como viveu. Na farra. Seu velório foi uma festa. Colossal tocata. Até o corpo baixar na sepultura. Os chorões prestaram-lhe sua última homenagem. Era choro, com choro.

*Chico Varella, escritor

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