GRATIDÃO

A canção do amanhã

Viver em Brasília é um imenso privilégio. Esse pedacinho consagrado de chão no coração do país oferece vantagens civilizatórias de inestimável valor aos que por aqui habitam

Fernando Brito
postado em 05/04/2021 06:00
 (crédito: Acervo Athos Bulcão/Divulgação)
(crédito: Acervo Athos Bulcão/Divulgação)

Viver em Brasília é um imenso privilégio. Esse pedacinho consagrado de chão no coração do país oferece vantagens civilizatórias de inestimável valor aos que por aqui habitam. Da arquitetura primorosa, que harmoniza urbanidade e natureza, aos virtuosos talentos artísticos formados na cidade, tudo parece motivo de esperança e inspiração para a construção de uma grande nação.

Da minha experiência como cidadão brasiliense, alegro-me de forma especial por ter testemunhado o surgimento de uma fenomenal geração de músicos, filhos do Clube do Choro (e de Hermeto Pascoal), que tanto nos fazem sorrir ao som de acordes e melodias de rara beleza e profunda erudição. Com dois desses prodigiosos instrumentistas, tive a honra de partilhar alguns momentos de amizade: Gabriel Grossi e Daniel Santiago.

Ambos dispensam apresentações. Tornaram-se artistas de reconhecimento internacional e integram o seleto grupo de virtuoses que arquitetam os rumos da nova música brasileira. Com Gabriel, dividi as cadeiras do curso de comunicação social. Aliás, posso me gabar de minha humilde contribuição para o desenvolvimento da cultura nacional, pois, em mais de uma ocasião, recordo de ter dado conta dos trabalhos de grupo na faculdade, enquanto um certo gaitista aperfeiçoava o talento. Foi aprovado com louvor: na academia e nos palcos musicais, que têm sentido falta de um gênio do sopro.

Graças à parceria universitária com Gabriel, fui apresentado a Daniel Santiago. Se a memória não me falha, no início dos anos 2000, eles faziam um dueto de violão e gaita que se apresentava em alguns espaços da cidade. Apesar de ainda jovens e em formação, era notório o vanguardismo da proposta musical que concebiam. Em certa ocasião, eu os convidei para uma entrevista. A matéria seria publicada em um falecido jornalzinho de Ceilândia, onde eu estagiava, e também na agenda cultural Se7e, da querida amiga jornalista Michelle Maia.

O encontro com os músicos aconteceu no apartamento da família do Daniel, na Asa Norte. Logo na entrada, sobre uma antiga vitrola, chamou minha atenção um disco solo de Keith Richards (guitarrista dos Rolling Stones) – era uma peça da coleção do dono da casa, devidamente estudada pelo filho. Entre uma pergunta e outra, acompanhei de camarote – e embasbacado – um breve ensaio da parceria que espero seja retomada algum dia: violão e gaita de primeira grandeza, técnica primorosa na execução e sensibilidade refinada na expressão.

Cerca de 20 anos depois, Gabriel Grossi e Daniel Santiago estão no topo do mundo em termos de reconhecimento da crítica musical. Passaram pelos mais renomados eventos; apresentaram-se e gravaram com artistas consagrados, incluindo, mais recentemente, o deus da guitarra Eric Clapton, que presenteou Daniel com um singelo solo na faixa Open World, do álbum Song for Tomorrow, que será lançado nos próximos dias.

Prestes a completar 61 anos, Brasília é o berço da canção do amanhã. Que a beleza nascida na capital dos sonhos de JK, Lúcio Costa e Niemeyer possa inspirar e iluminar nossos dias.

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