REFLEXÃO

Dia Internacional contra a Discriminação Racial

Mais um 21 de março passou, mas a necessidade de refletirmos continua presente

» Arine Alby S. Moreira de Miranda Professora
licenciada em dança
pós-graduanda em metodologia do ensino de artes
pesquisadora
postado em 05/04/2021 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

Mais um 21 de março passou, mas a necessidade de refletirmos continua presente. Sabemos que, no Brasil, desde o período colonial, por meio de leis e movimentos sociais, a negritude vem estabelecendo meios para erradicar o racismo. Mas eu me pergunto: “A quem essa luta antirracista beneficia?”

Até o momento, ser antirracista só convém à branquitude, que não quer, de forma alguma, se colocar no lugar de racista geneticamente beneficiado, fenotipicamente dentro dos padrões e ancestralmente privilegiado.

Os casos de racismo explícitos crescem, inclusive, os que a branquitude não identifica como sendo gerados exclusivamente pelo preconceito em suas diversas faces. Entendam que, quando me refiro à branquitude, estou falando sobre a condição de privilégio das pessoas brancas, mesmo daquelas que não se percebem racistas e corroboram para a manutenção deste comportamento como também das que estão engajadas na luta antirracista.

A insistência de supremacia de raças sendo perpetuada culturalmente, sendo, hoje, realizada principalmente pelas redes sociais, tem reafirmado as mazelas já enfrentadas desde o século XVI, e combatidas por pessoas como Martin Luther King, Rosa Parks, Malcolm X, Nelson Mandela e tantos outros militantes que puderam ter voz e visibilidade.

Percebem as referências que temos de pessoas pretas que se apropriaram de suas causas? Isso só foi possível graças à inserção destes na educação, tanto básica, quanto universitária. Não há empoderamento sem educação. Não me refiro somente à educação formal a que estamos habituados.

Nossos ancestrais já nos educavam por meio da cultura, de seus engajamentos e manifestações, das histórias contadas e de todo conhecimento empírico. É só olharmos para o antigo Egito e suas construções. Por mais que, historicamente, a Europa tenha saqueado o continente africano em prol do embelezamento de seus museus, nós sabemos que o Egito já foi preto, está gravado em suas paredes retratadas com faraós pretos retintos e as esfinges com seus narizes quebrados para que os nossos não se reconhecessem como reis e rainhas.

O apartheid reproduz-se no séc. XXI por meio da segregação nos ambientes de trabalho, nas universidades, nos parlamentos em que a maioria é branca, nos relacionamentos amorosos, nos quais mulheres negras geralmente são preteridas e/ou objetificadas sexualmente e são minorias nos casamentos bem-sucedidos.

Nos Estados Unidos, as leis segregacionistas de Jim Crow atuais são aquelas em que uma criança não tem permissão de se matricular numa escola por ter cabelo crespo, ou uma professora negra (o que ocorreu comigo) é vista como a “moça da limpeza”, ou no caso de um professor negro, como um ladrão entrando na escola. Os alunos são motivo de chacota por seus traços negroides. Uma pessoa preta costuma ter seu lugar ao lado do ônibus vazio ou então é o último a ser escolhido.

Acontece, também, quando as pessoas de cor (colored people — tratamento usado para distinguir pessoas negras na época separatista) são minorias em suas salas de aula e universidades. E até mesmo quando crianças negras se sentam em mesas diferentes na hora do lanche como era recorrente na África do Sul do apartheid.

A escravidão do período colonial reaparece na Líbia e em diversos países, onde homens negros, mulheres e crianças preferem se tornar refugiados para não serem vendidos por cerca de quatrocentos dólares, tornando-se escravizados, aprisionados no deserto por homens brancos em suas caminhonetes.

E há ainda o assassinato, como forma de silenciamento de líderes do movimento negro, assim como ocorreu com Malcolm X, em 1965, com Luther King, em 1968, e que se repetiu em 2018 com a vereadora Marielle Franco. Nosso povo se faz presente por meio dos movimentos sociais, herança dos quilombos, de Zumbi e Dandara.

Se, na década de 1960, nós tínhamos programas de TV fazendo chacota sobre nossos traços negroides (blackface — artistas brancos pintando-se de negros) expondo-nos ao ridículo, assim como um comediante branco e youtuber que se intitula cristão fez ao satirizar um cantor negro brasileiro, hoje, temos Yuri Marçal falando sobre negritude através do humor, enaltecendo nossos traços e abrindo os shows de outros pretos como o artista Djonga.

Diante de todas essas questões, acredito que a aposta na educação é a única razão que dá sentido a todo empoderamento e ressignificação de identidade como povos pretos e diaspóricos que somos. Luta que segue.

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