MERCADO FINANCEIRO

Dissonância global

PIB mundial deve ter, em 2021, um dos melhores desempenhos das últimas décadas. Em janeiro, o FMI previu uma alta de 5,5% este ano. Hoje, ele solta novas projeções, que devem trazer expansão ainda mais forte

» Armando Castelar Coordenador de Economia Aplicada do IBRE/FGV e professor do Instituto de Economia
postado em 05/04/2021 06:00
 (crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
(crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O PIB mundial deve ter, em 2021, um dos melhores desempenhos das últimas décadas. Em janeiro, o FMI previu uma alta de 5,5% este ano. Hoje, ele solta novas projeções, que devem trazer expansão ainda mais forte. Este mês a OCDE divulgou projeção de alta de 5,6%. O mercado financeiro, na sua maioria, espera um cenário ainda mais favorável. O Deutsch Bank, por exemplo, prevê alta de 6,8%. À guisa de comparação, nos 20 anos até 2019 o PIB mundial cresceu, em média, 3,8% ao ano.

Dois fatores explicam esse crescimento econômico global tão alto este ano. Um, a atividade ter terminado 2020 bem acima da média do ano, gerando um grande carregamento estatístico. Isto é, mesmo que na comparação de trimestre contra trimestre anterior o crescimento fosse zero, ainda assim o PIB médio de 2021 seria 4,1% mais alto do que o de 2020.

Outro fator é que, fruto da vacinação e dos fortes estímulos, monetários e fiscais, o crescimento deve acelerar ao longo do ano. Assim, o FMI, já em janeiro, previa que o PIB mundial estaria no último trimestre deste ano 4,2% acima do observado no final de 2020. Já o Deutsch Bank prevê uma alta de 5,2% nessa mesma comparação.

Esse otimismo não vale, porém, para todos os países. Em especial, se espera uma recuperação bem mais acentuada nas economias avançadas do que nas emergentes. Assim, a OCDE prevê que, ao final de 2022, o PIB dos países ricos estará aonde estaria se tivesse continuado a crescer no ritmo de antes da pandemia da covid-19. Ou seja, para efeito de PIB, a pandemia estará totalmente superada ao final do próximo ano. O mesmo resultado não se observa, todavia, para os países em desenvolvimento, que, nas projeções da OCDE, vão amargar uma perda duradoura em seu nível de renda.

Este é o caso, em especial, dos países da América Latina, que, todos esperam, terá grande dificuldade para superar as perdas incorridas com a pandemia. Os PIBs do Brasil e do México, por exemplo, só devem voltar ao patamar atingido ao final de 2019 no último trimestre de 2022. A Argentina só depois disso. Assim, em nossa região o desemprego deve permanecer alto e a situação social e fiscal complicada por ainda bastante tempo.

Já na Ásia emergente, o cenário é mais favorável. A China foi a única grande economia a crescer em 2020 (e este ano deve ter expansão econômica robusta, crescendo acima do resto do mundo. A Índia registrou uma queda significativa do PIB em 2020, 7,4%), mas este ano vai mais do que se recuperar, com alta de dois dígitos no PIB. Outros países, como Coreia do Sul e Indonésia, também devem mostrar um desempenho econômico robusto.

Graus variados de sucesso em lidar com a pandemia explicam boa parte dessas diferenças. Assim, a Ásia, aí incluídas as economias emergentes, teve mais sucesso em lidar com a pandemia, com menor número de mortes por habitante, mas, também, menos restrições à atividade econômica. Japão, Coreia e China são bons exemplos disso.

Já nas economias avançadas, o sucesso em vacinar a população vulnerável é o fator decisivo. Reino Unido e Estados Unidos se destacam nesse grupo, já tendo vacinado 45% e 30% de suas populações, em muitos casos com mais de uma dose. A Europa continental está mais atrasada e isso tem atrapalhado seu desempenho. Os países latino-americanos, com a exceção do Chile, estão bem atrás na vacinação.

Outra explicação para o diferencial de desempenho é as economias avançadas terem mais graus de liberdade para continuar dando estímulos do que as emergentes, em especial as latino-americanas. Os EUA outra vez se destacam: depois do pacote fiscal de US$ 900 bilhões no fim do ano passado, e de outro de US$ 1,9 trilhão no começo deste, o presidente americano apresenta um novo pacote de investimentos, com foco em infraestrutura sustentável, de cerca de US$ 3 trilhões.

Em que pesem as declarações do Fed, o banco central americano, de que tão cedo não aumentará os juros, estes têm subido no mercado financeiro. Junto à expectativa de uma forte aceleração do crescimento nos EUA, isso tem fortalecido o dólar e criado um ambiente bem menos favorável para as economias emergentes.

Para o Brasil, essa piora no ambiente externo é um complicador adicional, em um quadro que já se era desafiador. Assim, mesmo registrando um saldo comercial elevado este ano, e, segundo projeta o Banco Central, um superavit em conta corrente, o real deve seguir bem desvalorizado, a inflação elevada e os juros, com forte pressão de alta.

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