OPINIÃO

Visto, lido e ouvido — Tenham momentos felizes todos os dias

postado em 08/04/2021 06:00

Desde 1960 Circe Cunha (interina) // circecunha.df@dabr.com.br

Infelizmente, essa é a recomendação dada por nove em cada 10 psiquiatras, psicólogos e outros profissionais que cuidam da saúde mental. Não apenas no Brasil, mas no resto do mundo. A receita inusitada vem a propósito do aumento exponencial nos casos de depressão, demência, psicose e outros problemas mentais e que, segundo creem os médicos, advêm do enorme estresse a que estão submetidas populações inteiras por causa da pandemia e dos efeitos que a doença pode provocar no sistema nervoso central dos indivíduos.

Para muitos profissionais de saúde, a massiva quantidade de notícias, quase todas elas carregadas de informações negativas sobre o desenrolar da doença e das consequências futuras que as sociedades terão que enfrentar, tanto nas áreas de saúde pública quanto na economia e em diversos outros aspectos da vida cotidiana. Isso vem provocando um aumento considerável do estresse, semelhante ao que vivenciam os indivíduos numa guerra.

Ocorre que, em momentos de grandes catástrofes, as pessoas naturalmente buscam se informar, o máximo possível, sobre os últimos acontecimentos, até como meio de encontrar alguma resposta ou solução para tudo que está acontecendo. Essa parece ser uma atitude natural para a maioria dos seres humanos, principalmente para aqueles que moram em cidades grandes e onde a vida interativa é mais desenvolvida.

No Brasil, onde a situação da pandemia parece ter saído do controle, essa recomendação médica pode ser vista sob ângulos diferentes. Se, por um lado, a questão da pandemia parece ter se tornado a pauta única de boa parte da imprensa, que explora nossas precariedades e o pouco empenho de nossas autoridades frente a um problema de urgência, de vida e de morte, por outro, algumas outras mídias usam a doença, unicamente, como subterfúgio para fins políticos, explorando o tema com viés partidário.

Alguns outros meios de comunicação, mais alinhados com o governo, apresentam o problema recheado de estatísticas numéricas positivas, indicando que a pandemia está com os dias contados para acabar. A mídia internacional, por sua vez, não poupa o Brasil de críticas de toda a ordem, mostrando uma realidade cruenta, que poucos brasileiros conhecem de perto, nem ao menos as autoridades. O fato é que ao manter uma atenção até exagerada no que dizem os informes diários, muitos cidadãos, mesmo ao fazerem um balanço ponderado entre o que é fake e o que é fato, ficam com a impressão de que vivemos os últimos dias sobre a Terra.

Também é verdade que o distanciamento das notícias pode, a curto prazo, servir para uma espécie de alheamento ilusório, em que a realidade deixa de estar presente e cede lugar a um devaneio artificial.

De toda a forma, cabe à imprensa séria, e acredite, ela ainda existe no Brasil, informar o desenrolar de toda a pandemia como ela realmente está se processando neste país de desigualdades continentais. Obviamente, nesse espaço, cabe também um lugar de destaque às iniciativas e ao árduo trabalho que vêm empreendendo os cientistas brasileiros, tanto do Butantan quanto da Fiocruz, na pesquisa e produção de nossas vacinas, bem como o trabalho diuturno das equipes médicas e de todo o pessoal da saúde, principalmente daqueles que lidam com o problema na ponta, onde tudo acontece ou deixa de acontecer.

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