OPINIÃO

Artigo: Eu surto, tu surtas, ele surta

"Em uma pandemia, somos todos falíveis e insuportavelmente humanos"

Ana Dubeux
postado em 18/04/2021 06:00 / atualizado em 18/04/2021 09:26
 (crédito: Pixabay)
(crédito: Pixabay)

O confinamento é para os fortes. Os que sempre se acharam e os que descobriram agora que podem ser, muito mais do que supunham. Força é algo que vem das entranhas, que a gente puxa lá de dentro, dos órgãos vitais e dos nossos antepassados, e joga para as atitudes, para o levantar todo dia, para o trabalhar ininterruptamente, para o ato de criar coisas novas. Já somos sobreviventes ao nascer. Precisamos mais do que isso. Muitas vezes, temos de buscar ao redor aquilo que pode ser combustível para a nossa força interior. Reconhecer-se no outro, enxergar as fragilidades dele como suas, nos salva todo dia.

Em uma pandemia, somos todos falíveis e insuportavelmente humanos. Sabe aquela amiga zen, equilibrada e confiante? Sabe aquele amigo porto-seguro, sempre à disposição para ajudar nas horas mais delicadas? Sabe o médico, o conselheiro, o padre ou o analista, todos aqueles à frente de maravilhosas redes de amparo? Eles também surtam. Eu surto, tu surtas ele surta. Não é fácil o que estamos vivendo. E a força vem de olharmos para tudo isso, enxergar a realidade e entender que, apesar de tudo, precisamos seguir.

Desemprego, mortes em escala, políticos imbecis, isolamento, medo de adoecer e de perder alguém querido, tudo isso é realidade. Como lidar com a animosidade do momento e seguir calmo, confiante, sereno? Acho que o primeiro ponto é pegar leve na sua autocrítica, nas cobranças diárias. Se algum dia não der pra ser leve, que ele venha com rufos de tambores. Solte a criança raivosa que mora aí dentro, diga umas malcriações, mas não demore a voltar para si porque a besta-fera é daqueles hóspedes que se abancam sem cerimônia.

No meu caso, a vassoura atrás da porta é uma espécie de centramento. Eu o encontro dando longas caminhadas e compartilho os benefícios disso com meus amigos. Digo: mesmo que odeie, vá. Meu amigo mais querido me mandou um torpedo forte: “Eu estou dormindo três horas por dia. Meu estado psicológico está uma lástima. Entreguei nas mãos de Deus. Estou com raiva de você porque insiste em mandar caminhar...”. Passei para ele um vídeo que mostra cientificamente os benefícios do caminhar, não apenas para o corpo, mas também para a mente.

Preguiçoso assumido, ele odeia fazer exercícios. Mas hoje disse que a “porcaria do vídeo” o fez andar 10Km, às 7h da manhã, no Parque da Cidade, de máscara, seguro. Foi com raiva mesmo, mas foi. Outro amigo me acordou com uma foto de flor e um poema lindo. O começo dele diz assim: “Em tempos difíceis, você avança em pequenos passos/Faça o que você tem que fazer, mas pouco a pouco/Não pense no futuro, nem no que pode acontecer amanhã...”. É isso: acorde, reconheça a situação, explore a vida possível, perdoe-se pelos eventuais surtos, caminhe, acalme-se e viva. Um bom domingo!

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