OPINIÃO

Artigo: A forma como fabricamos o urbano; a falta que o verde faz

postado em 20/04/2021 06:00

Por MARTA ROMERO — Professora titular da FAU UNB — Coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade Aplicada à Arquitetura e Urbanismo (LaSUS)

A forma como fabricamos o urbano é um dos principais motores da mudança climática. O excessivo avanço do urbano no território fragmenta a paisagem, exerce pressão sobre os ecossistemas, tornando essenciais as políticas de mitigação dos efeitos das mudanças no clima. Isso fica muito evidente no espaço que abriga a capital da República. Em Brasília, atualmente, percebem-se algumas diferenças no clima após mais de sessenta anos de urbanização acelerada assim o demonstram pesquisas realizadas pelos pesquisadores do LaSUS.

O lugar de Brasília foi escolhido para sede do governo principalmente por suas condições climáticas, pois as características bioclimáticas do Plano Piloto desenvolvido pelo urbanista Lucio Costa propiciavam uma vastidão de lições para o planejamento urbano resiliente ao calor extremo. Porém o crescimento desordenado tem alterado sensivelmente o clima do DF. Se as intenções iniciais foram cuidadosas com o sítio, o que veio a seguir não mais foi acompanhado desse espírito. Especialmente as últimas intervenções no Plano Piloto, a criação recente de dois novos bairros: Sudoeste e Noroeste nas respectivas orientações.

Este último, sem a infraestrutura sustentável prometida nem rede de águas pluviais construídas, precisou de lagoas de contenção dentro do Parque Ecológico Burle Marx para resolver a questão da drenagem pluvial da região.

A imediata consequência foi o assoreamento do Lago Paranoá e a diminuição da umidade do setor, que provocaram alterações substantivas nas temperaturas urbanas da cidade. Essa situação acarretou a criação de novas ilhas de calor urbanas no território. Daí a necessidade de implementar, sem edificações, o Parque Ecológico Burle Marx, que tangencia o bairro. Nele seria preservado o “espírito” do lugar ecológico, o lugar sagrado, onde a natureza prevalece sobre as demais coisas. O Parque Burle Marx, com o Parque da Cidade, compõe uma longa faixa no sentido norte-sul.

Lucio Costa, no memorial na proposta vencedora para o Plano Piloto de Brasília, refere-se às duas grandes áreas verdes como “pulmões”, na medida em que foram simetricamente dispostas em relação ao Eixo Monumental, e representam, assim, áreas de respiração para a cidade. De fato, a sua existência e localização reforçam a solução linear do Plano Piloto, estabelecendo duas margens verdes de ambos os lados, garantindo a forma urbana proposta para a cidade, e nas palavras do urbanista “as extensas áreas livres, a serem densamente arborizadas ou guardando a cobertura vegetal nativa, diretamente contígua a áreas edificadas, marcam a presença da escala bucólica”.

A ocupação do solo na cidade com a redução dos espaços verdes e o calor antropogênico liberado pelos veículos, equipamentos e atividades humanas, contribuem para o estabelecimento de um campo mais elevado de temperaturas, designado por ilha de calor urbana. Esse fenômeno agora está presente no Plano Piloto. Nas nossas pesquisas, identificamos o uso de materiais que contribuem para o aquecimento do espaço público (baixo albedo, alta reflexibilidade da radiação solar, alta emissividade), além de pouca permeabilidade do solo e da vegetação, observando-se o aumento da temperatura local e a incapacidade dos materiais de liberar, durante a noite, todo o calor absorvido ao longo do dia, assim acumulando calor para o dia seguinte.

A vegetação, por meio da evapotranspiração, mitiga indiretamente o ganho de calor das superfícies e do ar adjacente devido à troca de calor, já de forma direta, o sombreamento reduz a conversão de energia radiante em calor sensível e diminui a temperatura de superfície. Ainda a absorção da radiação de onda longa pelas folhas é mais lenta que a das superfícies dos arredores, por isso, as pessoas nas áreas verdes têm menos pressão do calor radiante. Assim também a probabilidade de deslocamento a pé é três vezes maior em áreas sombreadas e com vegetação.

Detectamos que as temperaturas das superfícies urbanas foram elevadas em 1ºC nas Superquadras da Asa Sul e 0,5ºC nas da Asa Norte do Plano Piloto, nos últimos dois anos. Verificamos também que, assim como a SQS 108, a SQS 203 é uma típica Superquadra da Asa Sul, apresentando, contudo, cerca de 1ºC a menos que aquela em relação à temperatura nos períodos seco e chuvoso do ano. Entre outros fatores, o principal motivo identificado para essa diferença de temperatura está na porcentagem de copas de árvores, a qual na SQS 108 é 33,73% e na SQS 203 é 38,61%, diferença que sugere ser esta uma diferença sensível no conforto térmico urbano proporcionado pela arborização

Assim, segundo as nossas pesquisas, podemos concluir que a Asa Norte é mais quente que a Asa Sul, com exceção da quadra 412 Norte, vizinha do Parque Olhos d’água. Nos espaços totalmente pavimentados do centro da cidade, como os setores comerciais Sul e Norte, encontramos até 3o C a mais que as áreas limítrofes. E isso é particularmente preocupante nas áreas próximas dos estabelecimentos de saúde que se localizam nestas áreas centrais, onde os planos que se discutem são deixar por 30 anos carros estacionados, quer dizer metal aquecendo exposto diretamente à radiação solar e reirradiando para as edificações vizinhas.

Preocupa também o impacto da Quadra 500 Sudoeste, localizada em uma área ambientalmente frágil e sem previsão de ocupação no planejamento da cidade, pela alta densidade construtiva, supressão da vegetação nativa, aumento da temperatura (pelas pesquisas de quatro a nove graus de temperatura a mais), diminuição da ventilação urbana tanto no interior da própria quadra como também no seu entorno imediato. Os parâmetros analisados indicam, portanto, a nova Superquadra como uma área potencial de ilha de calor urbana para o bairro existente que já apresenta padrões menores de sustentabilidade que os projetados por Lucio Costa.

Lembrando que o urbanista criou para Brasília o conceito de cidade-parque, urge o desenho saudável para a cidade, quer dizer elaborar políticas públicas de como se pode reduzir sua vulnerabilidade nos cenários de mudanças climáticas, assim como incentivar a sua manutenção nos processos de requalificação de áreas urbanas e programas e políticas públicas de mobilidade sustentável. Nesse sentido, o LaSUS está contribuindo com diretrizes de desenho ambiental sustentável para a criação de novos bairros que irão tangenciar o Plano Piloto.

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