Missão: sobreviver

Rodrigo Craveiro
postado em 20/04/2021 22:37

No último domingo, enquanto editava uma página de Mundo sobre a suspensão do uso de máscaras ao ar livre em Israel, uma fotografia me chamou a atenção. Em Tel Aviv, cidade pulsante que tive a honra de conhecer anos atrás, jovens conversavam, de forma descontraída, sentados em uma roda. Ao lado, dois amigos trocavam um abraço. Todos de cara limpa. Seria nada demais até março de 2020. No entanto, a imagem simboliza a reconexão humana que a pandemia nos roubou. Quem de nós não sente falta de um abraço, de uma tarde de papo solto em uma praça, do riso frouxo em um bar? Quem de nós não tem saudades das confraternizações em família, do amor escrachado, sem medo de um inimigo invisível e tantas vezes letal?

Parte da minha família vive em Goiânia, minha cidade natal. Apesar da proximidade das duas capitais, no decorrer do último ano, pude ver o meu irmão gêmeo, uma de minhas duas irmãs, minha avó e minha mãe em três ou quatro ocasiões. Meu avô querido fez a passagem em abril do ano passado. Como senti falta de dar um abraço apertado em minha avó e de acolher um pouco a sua dor, de chorarmos juntos a ausência dele! Todos os anos, as nossas noites de Natal costumam ser muito felizes e emocionantes. Em 24 de dezembro passado, não nos vimos. Apenas nos falamos pela internet. Doeu.

A pandemia do coronavírus suspendeu nossas amizades e nossos laços familiares. Confesso que senti inveja dos jovens israelenses no abraço forte e na prosa sem hora e sem máscara. Se quisermos incorporar a rotina de Israel em nosso país, se quisermos abraçar o novo normal, precisamos abandonar o negacionismo, aceitar a ciência como nosso farol em meio ao desconhecido e fechar os ouvidos a vozes moucas, dissoantes e dissimuladas. Precisamos ignorar políticos que mais se preocupam com o próprio ego e com a façanha eleitoral do que com o bem-estar do cidadão. “Líderes” que insistem em trilhar a contramão das orientações de sanitaristas, em espalhar fake news, em promover aglomerações e em receitar medicamentos.

Se Israel conseguiu vacinar quase 60% da população e retomar uma vida social ao ar livre, o Brasil tornou-se uma nação pária. Nós, brasileiros, nos transformamos em portadores de uma praga que se aproveita da inação do governo e da falta de consciência de muitos de nós para sofrer mutações e ganhar virulência. Somos uma ameaça sanitária global. Ou nossas lideranças começam a tratar com seriedade uma doença que matou mais de 375 mil brasileiros ou seremos obrigados a cavar mais sepulturas, a chorar os nossos mortos e a manter o distanciamento social, além de nos manter afastados do resto do planeta. Até que a normalidade deixe de ser utopia, precisamos firmar um compromisso com nós mesmos: sobreviver.

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