OPINIÃO

Artigo — Abrace: 35 anos transformando dor em amor

postado em 30/04/2021 06:00
 (crédito: Gomez)
(crédito: Gomez)

Por Roberto Nogueira Ferreira — Economista, escritor e primeiro presidente da Abrace

“Deus quer. O homem sonha. A obra nasce”. Deus colocou no destino dos fundadores da Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace) o diagnóstico de leucemia de seus filhos. No convívio com mães de origens diversas, no Hospital de Base de Brasília, uma das mães sai da própria dor e abraça a dor coletiva. A nova e cruel realidade requeria enfrentamento. Que a dor unisse, já não separasse. Solidários na dor. Subsidiários na ajuda. Fazer o que o Estado deveria fazer. Não para substituí-lo. Na esperança, quase sempre vã, do exemplo arrastá-lo.

Para além do drama individual, em que muitos avistam o término da viagem, os fundadores viram a oportunidade de transformar a dor individual em amor coletivo. Foi o que se fez e se faz até hoje, 35 anos depois daquele 1º de maio de 1986 quando, na residência de Maria Angela e Roberto Nogueira, o amor falou mais alto e deu vida à Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias. É possível ler, nas anotações do dia, a necessidade de ir além da solidariedade. Lá está: “Lutar pela construção de um hospital infantil com uma unidade específica para tratamento do câncer”.

Início dos anos 1990. O governador Joaquim Roriz e o secretário de Saúde Jofran Frejat, a pedido da Abrace, visitam os alicerces, carcomidos pelo tempo, abraçados pelo matagal, do que seria um futuro hospital. Roriz viu, ouviu e cumpriu. Ergueu-se, ali, o Hospital de Apoio.

Início dos anos 2000. Roriz cede terreno para a Abrace construir, com recursos captados na sociedade, o Hospital da Criança de Brasília (HCB), e impõe condições: o hospital, uma vez concluído, comporá o patrimônio do GDF; o atendimento será pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a administração será feita pela Abrace ou entidade que ela venha a criar. Assim se fez: em 2011 Agnelo Queiroz inaugurou o hospital.

A Abrace não nasceu para administrar hospitais. Para atender ao contratado criou-se o Instituto de Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe).

O Icipe é filho da Abrace e, como tal, deve se comportar, com altivez, liberdade e responsabilidade, para não ser confundido com organizações sociais que surgiram pelo país afora, com lobbies organizados, em busca de recursos públicos.

Os profissionais do HCB são um misto de servidores estatutários e contratados pela via da CLT, inclusive sua direção, que lá está a convite da Abrace. O paciente quer cura. Desimporta se o médico é estatutário ou celetista.

Em 1993, Roriz cedeu para uso da Abrace a “residência oficial do administrador do Guará”. Lá, hoje, a Abrace hospeda mães e crianças de Brasília, do Entorno, de outros estados e até de outros países. Modernas instalações acolhem, inclusive, transplantados. Espaços de lazer, cultura e educação dignificam o espaço, concedem-lhe nobreza de uso.

A missão da Abrace é assistir as famílias de crianças com câncer, reivindicar condições adequadas de tratamento, cobrar atitudes governamentais, dar apoio às crianças e suas famílias antes, durante e após o tratamento, psicológico e material, incluindo melhoria habitacional. Não é incomum a Abrace adquirir e ceder ao HCB equipamentos cuja carência de recursos do Estado inviabiliza a compra. Exemplo recente é a aquisição de um aparelho de ressonância magnética, de altíssimo custo.

Chegamos a 2018. O destino atravessa o caminho de Maria Angela Marini, a personificação da Abrace, e ela assume a sua presidência. Veio a pandemia e a Abrace segue cumprindo sua missão. A presidente sempre soube da importância da Abrace para mães e crianças em tratamento, e cunhou a frase síntese desse período, motivadora, incentivadora: “O câncer não entra em quarentena”. A Abrace não pode parar. E não parou!

A obra da Abrace é grandiosa. Não basta o abraço solidário, é preciso ir além. O HCB também nasceu de seu ventre, quente e amoroso como todos os ventres maternos. Abrace, Icipe, HCB, tríplice relação bem-sucedida, irmanados no bem fazer.

A Abrace é uma construção coletiva, pois só o nada se constrói a sós. Ela acolhe as crianças com câncer com ética e responsabilidade, e a população de Brasília a acolhe. “Cada qual vê o que quer, pode ou consegue enxergar”. Há 35 anos os fundadores viram muito além de suas dores. E, ao verem, imaginaram que era possível. Obrigado, Brasília. Obrigado, Correio Braziliense, sempre abraçado às boas causas. Em sua homenagem, encerro, saudando a imprensa livre: Verba volant; scripta manent!

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