OPINIÃO

Visto, lido e ouvido — Atuação suspeita

postado em 01/05/2021 06:00

Desde 1960 Circe Cunha (interina) // circecunha.df@dabr.com.br

Em países onde autoridades do Estado e os cidadãos comuns são iguais perante a lei, submetendo-se, sem chances de protelar, aos mesmos rigores das penalidades, a situação, como a apresentada agora pelo atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, acusado, com outros próceres da região amazônica, de integrar organização criminosa, orquestrada por madeireiros, geraria uma crise sem precedentes, com a queda do governo, além de uma ampla investigação que, no mínimo, levariam todos para detrás das grades por um longo período.

Mas, em se tratando de Brasil, onde a lei é cumprida apenas quando se trata de punir gente comum, sem lastro político, a situação ganha outra dimensão, ou dimensão nenhuma, com possíveis processos apenas para aqueles que ousaram divulgar a situação insólita de um ministro do Meio Ambiente se colocando na posição de defesa dos infratores e contra os fiscais.

Não é de hoje que entidades e ONGs sérias, ligadas à defesa do meio ambiente, vêm denunciando a atuação do atual ministro Salles em desfavor dos órgãos de fiscalização e em prol do que ele mesmo chama de “empresários” do setor madeireiro. O delegado federal Alexandre Saraiva, exonerado, a mando do governo, dentro do projeto de interferência nos quadros de comando da Polícia Federal, foi quem denunciou a trama envolvendo o ministro e os madeireiros que vêm derrubando centenas de milhares de metros cúbicos de madeira de forma ilegal a cada temporada, e vinha investigando o caso escabroso até aqui.

Com seu afastamento arbitrário, as investigações que associam o ministro, alguns parlamentares e outros empresários em sofisticado esquema de extração ilegal de madeira voltam à estaca zero ou serão, possivelmente, arquivadas e perdidas num fundo de gaveta qualquer da burocracia corrupta e seletiva.

Em reportagem detalhada, a revista IstoÉ desta semana relata um suspeitíssimo envolvimento do ministro com famílias acusadas de liderarem a grilagem de terras públicas na Região Amazônica, atuando, ao mesmo tempo em que dificulta a ação fiscalizadora do Poder Público, como se fosse advogado de defesa desses madeireiros junto ao governo, numa clara manifestação de advocacia administrativa, desprezando todo e quaisquer indícios de crimes ambientais que esses “empresários” cometem.

As imagens de satélite e mesmo os sobrevoos nessas áreas desmatadas comprovam o cometimento desses crimes continuados e que são, constantemente, denunciados dentro e fora do país e que vão compondo um quadro bastante negativo desse governo, tornando seus discursos de promessas em prol do meio ambiente em letra morta, para prejuízos de todos os brasileiros e, principalmente, para as próximas gerações.

 

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