OPINIÃO

Artigo: Sangue de inocentes

Cida Barbosa
postado em 06/05/2021 06:00

E o Brasil se depara com mais uma barbárie contra crianças. Da pacata cidade de Saudades, em Santa Catarina, veio a notícia de uma perversidade atroz: três bebês, de menos de 2 anos, assassinados a golpes de facão na escola infantil Pró-Infância Aquarela. Duas funcionárias também foram vitimadas. Um menino, de 1 ano e oito meses, passou por cirurgia e luta pela vida na UTI de um hospital de Chapecó.

Saudades — que teve na terça-feira o dia mais triste de sua história, como disse o prefeito da cidade — procura respostas. A polícia diz que o assassino, de 18 anos, premeditou o crime. Ele chegou à creche de bicicleta, com uma mochila nas costas, na qual havia dois facões, e, ao ser abordado por uma professora, começou o ataque.

De acordo com o delegado, o homicida é quieto, sem amigos e com dificuldades de se relacionar. Diz a família que sofria bullying e, por isso, abandonou os estudos. A polícia aguarda para tomar o depoimento dele — se sobreviver, é claro, porque desferiu golpes contra o próprio pescoço —, mas a hipótese é de que praticou a crueldade por revolta do mundo. E escolheu logo a forma mais covarde e vil para demonstrar sua ira? Segundo relatos, ele perguntava a quem estava ao redor quantas pessoas tinha conseguido assassinar. “Eu matei cinco”, teria dito.

A covardia do crime, a pouca idade das vítimas, a premeditação e o local onde o horror ocorreu me fizeram lembrar imediatamente do massacre de Janaúba (MG), que completou três anos em outubro passado. Um vigia da creche Gente Inocente ateou fogo na sala de aula e matou nove crianças, de menos de 5 anos, além de uma professora e duas auxiliares. Deixou também mais de 40 feridos.

É estarrecedor como a nossa espécie mostra capacidade de promover tanto terror. A dor que essas crianças sentiram, o sofrimento das famílias, que tristeza meu Deus, que desolação. De onde vem tamanha violência, tamanha crueldade?

Saudades enterrou Sarah, 1 ano e sete meses; Anna Bela, 1 ano e oito meses; Murilo, 1 ano e nove meses; Keli, professora, 30; Mirla, 20, agente educacional. Mas a cidade jamais poderá sepultar a monstruosidade que marcará para sempre a sua história.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE