OPINIÃO

Artigo: O direito de saber e de se indignar

Ana Dubeux
postado em 16/05/2021 06:00 / atualizado em 16/05/2021 09:45
 (crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado)
(crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Aqui e ali, começam os murmúrios de que a CPI da Covid serve a fins eleitoreiros. A meu ver, uma armadilha que cidadãos de bem não podem cair. Quem deseja transformar investigação em factoide e usar depoimentos para abanar a fogueira do ódio e da polarização política vai ver escoar pelo ralo uma chance única de saber o que de fato aconteceu para o Brasil ter mais de 425 mil mortos nesta pandemia, boa parte deles enterrados quando já havia um antídoto para salvar vidas em vez de abreviá-las.

O fato é: o Brasil não levou a sério a pandemia. O Brasil negligenciou os cuidados, recusou vacinas, debochou dos alertas científicos, sapateou em cima das estatísticas de mortes. A população brasileira tem o direito de saber: quem são os culpados pela maior tragédia sanitária de que se tem notícia? Quem são os omissos? Quem são os incompetentes? O que foi erro e por que ele não foi corrigido a tempo – lembrando que diversos países mudaram rotas para acertar durante o processo? O que foi crime e leviandade?

Conhecer os fatos que levaram a essa situação é acertar as contas com a história. Punir os responsáveis é essencial para que possamos reconstruir os laços com a política, com o senso de cidadania, com a nação. É voltar a se orgulhar de ser brasileiro. Para mim, a CPI, se bem conduzida, é uma chance de redenção.

Se alguém, seja cidadão, seja político, pretende fazer uso político e eleitoreiro dessa oportunidade está ignorando a magnitude do momento. Devemos dar importância ao que é de fato importante. Esclarecer, conhecer, investigar, se indignar com conhecimento das causas e efeitos. Isso é direito meu, seu, do país.

Até 2022, muita água a de rolar nesse rio caudaloso que se transformou o Brasil. A enxurrada revolve o passado, é certo, puxando para cima o rescaldo das últimas eleições, quando o país tornou-se água turva de ódio, preconceito, fake news. A única chance de filtrar essa impureza é se concentrar na busca pela verdade e pelos culpados.

Deixar a eleição para depois e focar na importância de conhecer a fundo atos e fatos é o melhor a ser feito. Só a verdade resgata a paz. E a verdade será essencial daqui para frente, para que possamos amadurecer como nação e aprender lições de uma pandemia, que, ao menos para nós, está longe de terminar. Temos o direito de saber o porquê. Depois, quem quiser, volta para o boteco, quebra o pau com o vizinho, sai do grupo do WhatsApp da família e volta a conviver com o ódio, se assim o desejar.

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