OPINIÃO

Artigo: Sem cultivarmos o passado, não haverá futuro

Correio Braziliense
postado em 09/06/2021 06:00
 (crédito: editoria de ilustração)
(crédito: editoria de ilustração)

Por DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR — Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria, presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC)

Com base no atual presente a que chegamos no Brasil, não nos será possível construir o futuro. Seguiremos condenados a meras ilusões capazes de manter unicamente a rota do atraso, desigualdade social, violência, assim como de todos os sinais e sintomas, não apenas da covid-19, mas da enorme falta de educação.

Na busca do horizonte de um verdadeiro futuro humanista que merecemos, o primeiro passo será apagar tão insustentável presente. Apenas assim poderemos cultivar os valores do passado, cujas raízes sociais estão solidamente abastecidas pela essência substancial de uma nação civilizada. Se não o fizermos, persistiremos na lamentável prática da desconstrução de um país cujo território é privilégio no planeta. Não há porque desprezá-lo em favor de interesses menores que impedem a construção de uma sociedade fundada no sólido e coerente altruísmo.

A verdadeira riqueza do passado é produto da mente humana global, sempre alimentada pela prática da reflexão pacífica, a partir de pensamentos interativos que são a fonte cósmica da visão universal da espécie homo sapiens. O legado dos grandes pensadores da humanidade há de ser reconhecido. É a única e legítima riqueza com a qual as novas gerações deverão estar sintonizadas, a fim de que o futuro não deixe de ser inspirado nos princípios morais e éticos que somente podem ser cultivados pela fé humanista.

Alguns exemplos são referências do passado ainda recente, que confirmam todos os conceitos acima expostos. Seus conteúdos precisam ser difundidos, com a lógica educativa, em benefício da nova era a ser vivida de maneira adequada à construção contínua e coerente de uma mentalidade cada vez menos animalesca e cada vez mais consciente. Um deles, brilhante no seu trabalho teológico e antropológico, é o padre Teilhard de Chardin, de origem francesa, autor de uma obra de qualidade emocionante: O fenômeno humano. Já no prólogo de seu livro, o tão eminente filósofo elabora frases que são a síntese de suas convicções. Uma delas é: “O homem não pode ver-se completamente fora da humanidade; nem a humanidade fora da vida; e nem a vida fora do universo”.

Além disso demonstra, de maneira consistente, a iluminada base da sua visão quando diz: “Na verdade, duvido que haja, para o ser pensante, minuto mais decisivo do que aquele em que, caindo-lhe a venda dos olhos, descobre que não é um elemento perdido nas solidões cósmicas, mas que uma universal vontade de viver nele converge e se hominiza”. Trata-se, sem dúvida, de um texto bem convincente no qual o humanismo, virtude essencial à vida da espécie, é abordado de forma produtiva e respeitosa.
Outro exemplo vem de Ruy Barbosa, notável referência intelectual brasileira. Em 1848, concentrou seus esforços na elaboração e na defesa do projeto da educação infantil com o necessário destaque da prioridade absoluta dessa faixa etária. Embora seja assim reconhecida no artigo 227 da constituição brasileira, não tem merecido os investimentos na sua dimensão indispensável, sem a qual continuamos iludidos pelo teor do Hino Nacional, que nos faz acreditar que estejamos “deitados eternamente em berço esplêndido”. O grande Ruy Barbosa chegou a profetizar que, se o país não implantasse um projeto educacional naqueles moldes, a sociedade brasileira não teria futuro. É o que aconteceu. Seguimos perpetuando o presente sem sabermos olhar para o futuro. Trata-se da visão tenebrosa que precisamos reverter.

Mais um exemplo que vale a pena mencionar é o da obra do experiente historiador alemão Oswald Spengler. Seu livro, que data do ano 1922, intitulado A decadência do ocidente, é o resultado de belo trabalho de pesquisa histórica. Compara a evolução de distintas civilizações da humanidade. Em cada uma delas, o historiador identifica quatro etapas, com um maior enfoque naquela que corresponde à decadência de uma civilização. As referidas etapas de todas as civilizações estudadas são conceitualmente as mesmas, muito embora com distintas formas que são próprias de suas respectivas épocas históricas. É a chamada teoria circular da civilização que relativiza o conceito de progresso. Do estudo que o autor desenvolveu, veio o diagnóstico de que a civilização ocidental está na fase de decadência.

Nosso país é uma grande prova de tudo isso. É chegada a hora de investirmos na educação humanista, igualitária e civilizatória. Em outras palavras, não podemos sobreviver sem essa mudança. Deve, pois, estar bem claro para todos nós que, sem cultivarmos o passado, não há futuro.

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