Desde 1960

Visto, lido e ouvido — Respeitável público

Circe Cunha (interina) // circecunha.df@dabr.com.br
postado em 10/06/2021 06:00

Quando, no passado, diziam que os brasileiros viviam na corda bamba, tamanho eram os desafios que enfrentavam no dia a dia para sobreviverem, havia nessa afirmação algo muito além de uma simples imagem sem sentido. O que a frase escondia nas suas entrelinhas era uma realidade do tipo mambembe, experimentada há séculos por muitos brasileiros. De fato, o que se observava eram os desamparados, travestidos em atores por pura necessidade. No fundo, essa corda bamba de um arriscado malabarismo diário, era uma imagem fiel vinda de um inconsciente coletivo, que se perde no tempo, algo retido na memória do povo, que agrupava num mesmo conjunto, pessoas comuns e atores de uma espécie de circo permanente.

Todos eles, invariavelmente, inseridos na luta pela vida. Gente comum das periferias, que acorria para o centro das cidades, representando seus personagens e apresentando seus produtos e aptidões para uma plateia sempre apressada e indiferente ao mundo em redor. Foi assim no passado e é assim no presente.

O país dos excluídos pouco ou nada mudou desde 1500. Hoje, o palco desses atores está espalhado por todas as esquinas e sinais de trânsito desse imenso Brasil. Basta a luz vermelha brilhar, interrompendo o trânsito pesado, para eles imediatamente entrarem em cena.

A crise econômica e social deflagradas pela longa pandemia fez eclodir em cada ponto nevrálgico de nossas cidades as encenações desses instantâneos de rua. Ali, nesse pedaço urbano que é de todos e de ninguém, pessoas cuspindo fogo pela boca, equilibristas em cordas bambas ou em altos monociclos, fazendo seus malabares complicados e ensaiados, são vistas ao lado de palhaços, músicos e de muitos vendedores de guloseimas, água, pipoca, ou seja, tudo aquilo que um dia existiu nos circos de verdade.

É a arte transmutada no ofício da sobrevivência. Era assim, também, nos circos de outrora. Bastava dar uma olhada, displicente ao redor, por detrás da lona, nos bastidores do espetáculo, para conferir e imaginar as reais agruras vividas pelos atores para defender o alimento de cada dia.

Hoje, do antigo circo, restou apenas a multidão de atores, engrossada pela gente comum que passou a enxergar nesses “espetáculos” a céu aberto mais uma forma de também salvar o dia.

É o grande circo Brasil, formado, ainda, por uma legião de milhões de pequenos atores, ainda crianças, vítimas da exploração do trabalho infantil. Apresentando-se diariamente nas esquinas e nos semáforos ou até em praças, transformadas em camarins, esses atores menores, continuam invisíveis aos olhos de uma sociedade que olha e não vê, escuta e não ouve, toca e não sente.

São brasileiros vivendo literalmente hoje na corda bamba. Equilibrando-se no fio da navalha, fazendo malabares com tostões escassos. Ilusionistas, fazendo desaparecer como mágica e diante de todos, restos de sanduíches ou sobras de marmitas. “Respeitável público, diz a voz do além, eis aqui de volta o grande circo Brasil, um circo que nunca daqui saiu, apresentando, agora, nessa pandemia, o fantástico homem faquir, que nunca fez uma refeição condigna, ladeado por pequenos atores cuja infância fragilizada e sem direitos mostra, como em nenhum outro espetáculo, o fantástico mundo da nossa desigualdade social.

Venham ver também as fabulosas gêmeas seviciadas desde bebês a cantar suas melodias mudas… Venham assistir também um país inteiro que tornou possível a existência desse circo...

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