OPINIÃO

Artigo: Curto-circuito energético

Correio Braziliense
postado em 22/06/2021 06:00
 (crédito: editoria de ilustração)
(crédito: editoria de ilustração)

Por ANDRÉ GUSTAVO STUMPF — Jornalista (andregustavo10@terra.com.br)

É a segunda vez em pouco mais de 20 anos que os brasileiros estão na posição de sofrer um racionamento de energia. O problema não está no Brasil nem nos brasileiros, mas nos gestores do enorme parque gerador de eletricidade no país, que não conseguem planejar para o mínimo de cinco anos à frente, como mandam as boas práticas no sistema. Acontecem anos mais chuvosos e outros mais secos, mas as oscilações do clima são previstas pelos supercomputadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A ninguém é dado o direito de se dizer surpreendido pelas agruras do tempo.

Estamos no início de um ano especialmente seco. A economia está saindo com dificuldade de um período de profunda recessão. Isso quer dizer que o consumo de energia está baixo, porque as indústrias reduziram atividades por causa da pandemia. A demanda caiu em relação aos anos anteriores ao vírus. Ainda assim, tocam os alarmes em todos os painéis de controle do sistema. Energia no Brasil é muito cara, dizem os especialistas. Há uma chusma de impostos, taxas e subsídios embutidos nas contas de luz.

É preciso dizer uma verdade pouco comentada. O principal centro consumidor de energia no Brasil fica no centro-sul, com São Paulo na frente. Mas os maiores rios da região, que proporcionam aproveitamentos hídricos importantes, estão ocupados. O Rio São Francisco está salpicado por barragens. O Rio Paraná também, onde, aliás, foi construída a hidrelétrica de Itaipu. Não existem possibilidades de grandes aproveitamentos no sul e no sudeste do país para fins de geração de energia.
A solução é recorrer aos grandes e caudalosos aproveitamentos do norte do país. O primeiro deles foi Tucuruí, no Pará, que gera 8 milhões de quilowatts/hora. A obra foi inaugurada no governo Figueiredo, em meio a uma ampla discussão sobre meio ambiente.

Produzir no Norte e consumir no Sul/Sudeste resulta numa situação espantosa. O Brasil possui mais de 160 mil quilômetros de cabos energizados. É o Sistema Interligado Nacional. As maiores cargas são desviadas de uma área para outra durante o dia conforme a demanda. De vez em quando, cai uma chave no sistema de Tucuruí em algum lugar da floresta, e as capitais nordestinas ficam apagadas. Só há coisa parecida nos Estados Unidos, Canadá e na Rússia. Bonito, elegante, mas insuficiente para o tamanho atual da economia brasileira. Se o Brasil voltar a crescer, o problema vai aumentar. Não há energia disponível.

Ocorreram dois desastres importantes. A hidrelétrica de Balbina, construída pelos militares, foi imaginada para abastecer a cidade de Manaus. Não consegue entregar nem 25% disso. E Belo Monte, erguida no governo Dilma, desliga parte das turbinas quando o Rio Araguaia reduz sua vazão. Esse é um fenômeno periódico e previsível. As duas hidrelétricas do Rio Madeira, nas proximidades de Porto Velho, produzem mais de 20 milhões de quilowatts/hora. Quase tudo é enviado para o sul por longuíssimas linhas de transmissão.

O governo enfrenta a grande seca tentando antecipar ou manter o cronograma de entrada de usinas de geração de energia para reforçar o sistema nacional. Além disso, autorizou importação de energia da Argentina e do Uruguai e o acionamento de todas as termoelétricas disponíveis. O esforço, se for bem-sucedido, colocará em operação neste ano 4.745 megawatts (MW) de potência instalada no sistema interligado nacional. Desse total, 1.683 MW são de eólicas, 1.338 MW de térmicas a gás e 1.317 MW são de energia solar. Mas o total previsto para iniciar a operação neste ano equivale a 2,7% da potência hoje disponível no sistema.

A verdade é que, apesar da fabulosa quantidade de aproveitamentos hidrelétricos na Região Amazônica, sem contar com o potencial dos rios da margem esquerda do Rio Amazonas, está difícil construir grandes barragens na Região Norte. O desmatamento influi na quantidade de água. Os problemas ambientais são cada vez mais cobrados e deixaram de ser assunto brasileiro para se tornar questão internacional. Antes que alguém sugira a construção de usinas nucleares, restam as alternativas eólica e solar, ambas renováveis e mais baratas. O ano de 2021, em termos de energia, está perdido. Mas é possível planejar a partir de agora a construção de parques geradores eólicos ou solares em todo o país em áreas próximas aos grandes centros consumidores. A possível privatização da Eletrobras poderá entregar ao capital privado a possibilidade de encontrar soluções práticas e de menor custo.

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