OPINIÃO

Artigo: A semente é do vizinho

Correio Braziliense
postado em 02/07/2021 06:00

Por ORLANDO THOMÉ CORDEIRO Consultor em estratégia

A MPB é uma das mais ricas formas de retratar nossa realidade. Muitas vezes apoiada no drama, às vezes na paixão e no amor, outras tantas na ironia. Um dos maiores representantes dessa última vertente é Bezerra da Silva. Nascido no Recife em 1927, aos 15 anos viajou para o Rio de Janeiro, em busca do pai, onde acabou fixando residência. Nos primeiros anos na cidade, trabalhou na construção civil, até que na década de 1950, resolveu se reinventar como músico profissional e compositor. Gravou seu primeiro compacto em 1969 e o primeiro disco em 1975, tendo lançado 28 álbuns em toda a carreira, com mais de 3 milhões de cópias vendidas, que lhe renderam 11 discos de ouro, três de platina e um de platina duplo.

Do álbum Justiça Social, de 1987, um de seus maiores sucessos é A Semente, cuja letra permite uma perfeita analogia com a situação política brasileira neste século. Em sua primeira estrofe, os versos nos dizem o seguinte:

Meu vizinho jogou, uma semente no seu quintal

De repente brotou um tremendo matagal

Quando alguém lhe perguntava que mato é esse que eu nunca vi.

Ele só respondia não sei não conheço isso nasceu aí.

Em 2005, o então presidente Lula, diante das primeiras denúncias e posterior investigação do Mensalão, fez diversos pronunciamentos em que a frase “Eu não sabia” tornou-se uma sua marca. Passados 16 anos, vimos o presidente Bolsonaro fazer afirmação semelhante, diante das denúncias de existência de um esquema de propina no Ministério da Saúde relacionado à vacina Covaxin feitas pelo servidor público Luiz Sérgio Miranda e seu irmão, deputado federal Luiz Miranda, em depoimento à CPI da Covid, em 25 de junho último.

Em alguns versos adiante Bezerra nos brinda com a pérola abaixo:

Mas foi pintando sujeira o Patamo estava sempre na jogada,

Porque o cheiro era bom e ali sempre estava uma rapaziada

Os homens desconfiaram ao ver todo dia uma aglomeração

E deram o bote perfeito e levaram todos eles para averiguação e daí

Na hora do sapeca-ai-ai-ai o safado gritou

Não precisa me bater que eu dou de bandeja tudo pro senhor

Olha aí eu conheço aquele mato chefia, e também sei quem plantou

Em 2005, José Dirceu, o então todo-poderoso ministro da Casa Civil, diante do escândalo do Mensalão, é exonerado do cargo e reassume seu mandato de deputado federal, mas, em novembro do mesmo ano, é cassado pela Câmara Federal. Mantendo-se fiel ao ex-presidente Lula e a seu partido, optou por pagar sozinho pelos crimes, poupando o ex-presidente. Nos dias atuais, com o surgimento de novas denúncias de corrupção no Ministério da Saúde, vemos o governo federal começar a apontar o dedo para o deputado federal Ricardo Barros, construindo a narrativa de que ele seria o único responsável pelos crimes denunciados. Adicionalmente, a exoneração, em 30 de junho, do diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, acusado de pedir propina de US$ 1 por dose numa negociação para aquisição de 400 milhões de doses da vacina Astrazeneca, revela uma clara tentativa de blindar o presidente. É importante lembrar que em 19 de outubro de 2020 foi publicado no Diário Oficial da União o despacho do presidente, de nº 624, encaminhando oficialmente ao Senado Federal a indicação dessa mesma pessoa para ocupar o cargo de diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Entretanto, sem qualquer justificativa pública, em 27 de outubro do mesmo ano, é publicado novo despacho, de nº 634, retirando a indicação. Nas próximas semanas, denunciantes e denunciados serão ouvidos pela CPI e, certamente, o país poderá tomar conhecimento de muitas e novas informações que ajudarão a desvendar os crimes de corrupção divulgados.

Nesse cenário anunciado, será possível verificar se “Na hora do sapeca-ai-ai-ai”, os eventuais “safados” serão solidários ao presidente ou não. Desde o início do mandato, o presidente e seus apoiadores repetem com orgulho que no governo não há corrupção. Aliás, essa é a justificativa utilizada por diversos segmentos para manter o apoio, mesmo reconhecendo a incompetência governamental e a trágica gestão durante a pandemia. Frases do tipo “é autoritário, mas não rouba” ou “é grosso, mas não é corrupto” são repetidas à exaustão nas redes sociais. Porém o maremoto de denúncias nas últimas semanas provocou um silêncio ensurdecedor nas redes bolsonaristas. Atordoados, não sabem como se comportar. As primeiras tentativas de desqualificar os denunciantes ou desviar a atenção não têm gerado adesão. O próprio presidente, tão cheio de si em diversas ocasiões, mostra-se acuado. Estará ele sentindo o bafo do impeachment no cangote?

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