Desde 1960

Visto, lido e ouvido — Democracia a preço de ouro

Circe Cunha (interina)
postado em 14/08/2021 06:00

Alguns fatos, por sua evidência cristalina, muitas vezes passam despercebidos para a maioria das pessoas, mesmo estando na ponta do nariz de muitos. No caso aqui, em se tratando do nosso modelo político-partidário, é uma espécie de protótipo projetado para não atender aos interesses soberanos dos eleitores e, sim, ao apetite pantagruélico dos caciques e donos das legendas. Fica patente que é chegada a hora de a população exigir, pelos meios legais de que dispõe, uma reforma profunda que moralize e racionalize esse sistema o quanto antes, sob pena de conduzir a nação para um tipo inédito de ditadura do parlamento, no qual os desígnios dos políticos suplantarão, em muito, o que esperam os cidadãos de bem.

Nesse ponto, fica demonstrado, na prática, que a existência de uma enorme bancada, composta por aproximadamente 200 parlamentares ou cerca de 40% dos deputados. Em muitas votações de interesse, eles têm mostrado um comportamento disciplinado, coeso, e poderiam muito bem ser aglutinados em apenas um bloco. O bloco de direita, eliminando, assim, uma dezena de legendas inúteis e dispendiosas para os eleitores. Do mesmo modo, poderiam ficar concentrados num bloco das esquerdas todos os partidos que defendem essa ideologia. O restante ficaria distribuído entre os blocos de centro-direita e centro-esquerda, completando, assim, quatro grandes bancadas com assento nas duas casas do Congresso.

Poderia, ainda, segundo a preferência do eleitor, ser formado um quinto bloco, composto por parlamentares avulsos e independentes. A eliminação de dezenas de legendas de aluguel que só têm servido para onerar nosso dispendioso modelo de representação que temos, tornando-o disperso e ineficaz, representaria, por baixo, uma economia de algo como R$ 7 bilhões, que é o montante que poderá custar as próximas eleições de 2022.

Trata-se de um gasto, muitas vezes, superior ao que é destinado para muitas áreas de interesse imediato da população. O fato, para dizer o mínimo, é que o nosso modelo de democracia custa muitíssimo ao eleitor, pagador de impostos. O pior é que o modelo, incrivelmente, atende muito mais a classe política do que os brasileiros, e tende a piorar nos próximos anos.

Obviamente, a democracia, como regime político que preza a liberdade e o Estado democrático de direito, não pode ser avaliada segundo metodologias de precificação, mas em se tratando do nosso modelo particular, erigido para enriquecer indivíduos e partidos, estamos falando de um outro preço. O preço da esperteza. A questão aqui é saber até quando os brasileiros estarão dispostos a pagar para ter o atual modelo em mãos.

Em termos comparativos com outros países desenvolvidos e onde a democracia é uma conquista centenária, sabe-se que o nosso modelo custa, aproximadamente, seis vezes mais do que o francês e cinco vezes mais do que o britânico, que existe desde 1689.

Temos uma das eleições mais caras e, do ponto de vista dos direitos da cidadania, do planeta. Não é pouco. Com a proibição do financiamento privado, depois dos escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava-Jato, os políticos foram com fome para cima dos cofres públicos. Por meio do chamado presidencialismo de coalizão, arrancam, a cada eleição, o que querem de recursos.

Os custos somados dos fundos partidários e dos fundos eleitorais demonstram, na prática, que estamos no caminho errado para a democracia. Não é por meio da tutela estatal da classe política, realizada a fundo perdido, que teremos a democracia a que temos direito.

A frase que foi pronunciada

“Nada é tão contagioso quanto o exemplo”
François La Rochefoucauld

Respeito é bom

As famílias brasileiras não engoliram a campanha publicitária do Burger King. As notícias dão conta de que o prejuízo amargo chegou a R$ 97,1 milhões. Quem tem os pés no chão sabe que nada teve a ver com a pandemia.

Ardeu

O Supermercado Supercei, na subida de Sobradinho, pintou o céu de Brasília com uma enorme coluna de fumaça. As imagens que correram pelas mídias sociais estão no Blog do Ari Cunha.

Onde?

Ministro Guedes diz que os estados nunca receberam tanto dinheiro. Uma pena que o governo não tenha um sistema para que a própria população acompanhe em quê a verba foi aplicada.

História de Brasília

Quando começou a construção da central de Telex na Superquadra 208, nós chamamos a atenção, desta coluna, que era um absurdo, mutilar uma superquadra para construir uma repartição pública, no Plano de Brasília, havia lugar previamente determinado.
(Publicada em 7/2/1962)

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