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A esperança esperou demais, por Fernando Brito

Esperamos demais, e o tempo, agora, finda. Um milagre, talvez. Mas não há fé o bastante. Quem sabe a salvação surja da união do filho do presidente com a militante da oposição

Fernando Brito
postado em 16/08/2021 06:00
 (crédito: Ahmad SAHEL ARMAN / AFP)
(crédito: Ahmad SAHEL ARMAN / AFP)

Uma célebre figura político-partidária posa diante das câmeras com armas nas duas mãos e uma expressão ensandecida. Apesar de a carreira manchada por falcatruas das mais escabrosas, sente-se autorizado a discursar sobre os rumos do país. É uma fala violenta, desconexa e anacrônica, mas, ainda assim, capaz de seduzir outras mentes tomadas por desvarios — gente que desconhece a diferença entre um agricultor e um jagunço, como aquele outrora bom cantor sertanejo. Comparsas e cúmplices do líder supremo integram a seita bélica que arrasta a nação para um destino caótico.

Do outro lado do mundo, milícias de fanáticos religiosos armados até a alma tomam o território de assalto: promovem o terror, destituem o governo e afugentam a população. Vivem sob códigos arcaicos e uma lógica obscura, cujos resultados perpetuam dor, sofrimento e exploração. Vangloriam-se não pela capacidade criativa, mas pelas munições e explosivos que espalham destruição e morte. É um jeito estranho de viver...

O vírus e o clima se impõem, enquanto populações inteiras custam a perceber. Distraídas por vícios consumistas, tornaram-se alheias a qualquer vestígio de ciência ou espiritualidade e se regozijam em cínicos comentários expostos em redes sociais. Debocham do aquecimento global, afinal, no mês passado fez tanto frio. Interpretação de texto poderia ser útil, mas certas disciplinas provocam muita dor de cabeça.

A esperança não se confirma. Esperamos demais, e o tempo, agora, finda. Um milagre, talvez. Mas não há fé o bastante. Quem sabe a salvação surja da união do filho do presidente com a militante da oposição. Ele vislumbra a possibilidade, diz que acredita no amor, mas ela não está disposta ao sacrifício, pois sabe que jamais daria certo — está cansada de promessas vazias. Prefere viajar sozinha, saborear alguns frutos e espalhar sementes pelo caminho. Se árvores brotarem em meio à vastidão, seria bom sentar à sombra para fazer um novo plano ou descansar em paz.

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