opinião

Visão do Correio: efeitos da crise institucional

Expansão com inflação alta tem vida curta, diferentemente da experiência de países que se desenvolveram criando um mercado interno forte em consumo

Correio Braziliense
postado em 18/08/2021 06:00 / atualizado em 18/08/2021 07:40
 (crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
(crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Pelas leis da economia, mais que a evolução real dos preços, câmbio, balança comercial, investimentos e da produção e desempenho das empresas, é a expectativa sobre o comportamento desses e de outros indicadores que move a montanha, como diz o ditado em relação à fé, no rumo do crescimento ou na direção oposta a ele. Num Brasil que busca não só a recuperação como também a expansão do seu PIB, em meio a uma crise institucional com ruídos diários, torna-se difícil lidar com essa perspectiva se confirmando num caminho desfavorável e perigoso para o país.

Na segunda-feira, ficou evidente a deterioração das previsões de mais de uma centena de analistas de bancos e corretoras que o Banco Central ouve na elaboração do Boletim Focus. As expectativas para a inflação alcançaram, pela primeira vez neste ano, a barreira de 7%, inclusive ultrapassando esse percentual. Agora, são 19 elevações projetadas do custo de vida em 2021, sendo que a última delas saiu de 6,31% em julho para 7,05%.

Com isso, a taxa básica de juros, a Selic, subiu mais um pouco, de 7,25% para 7,5% ao ano no cenário imaginado pelo mercado financeiro. Significa dor de cabeça para o BC, uma vez que o Conselho Monetário Nacional não contava com nada além de um IPCA de 5,25% neste ano, permanecendo o centro da meta de inflação em 3,75% anuais. Pioraram também as expectativas quanto à performance da atividade econômica neste ano para taxa de crescimento de 5,28% ante 5,30% anteriores, assim como a previsão para o PIB de 2022 baixou de 2,10% para 2,04%.

Analistas têm admitido ainda que a crise política afeta mais do que se imagina os ativos da Bolsa, com o Ibovespa acumulando perdas de 1% este ano. Basta observar tratar-se de resultado muito ruim, na comparação com as altas dos grandes mercados acionários do mundo como o de Nova York (17,33%) e o de Frankfurt (16,4%) e até mesmo de países emergentes. Argentina mostrou subida de 26,6% e a Rússia, de 20,1%, de suas respectivas bolsas.

A Bolsa fechou o pregão em queda de 1,07% ontem, aos 116.247 pontos e inverteu o sinal no mês, agora, com desvalorização de 3,19%%. O Ibovespa havia chegado aos 130 mil pontos em junho. Há quem estime que a B3 poderia ter passado dos 150 mil pontos. O dólar, por sua vez, deveria estar mais baixo, não fosse a crise política. A moeda está precificada em R$ 5,10 para o fim do ano, frente à estimativa de R$ 5,05 traçada um mês atrás.

Todo o esforço da produção industrial também não tem convencido o mercado financeiro, que optou por trabalhar com discreto avanço de 6,43% para 6,47% da taxa de crescimento em 2021. Para 2022, os analistas mantêm a previsão de 2,20%. E, para completar o cenário incômodo entre as áreas técnicas do BC e do Ministério da Economia, é do governo que surgem mais indicadores negativos. A Aneel divulgou, na segunda-feira, cálculos preliminares de que ,após o baque nas contas de energia este ano, que têm puxado a inflação, as tarifas devem subir, em média, 16,68% ano que vem, devido aos efeitos da crise hídrica.

São números mais do que suficientes para que o presidente da República e sua equipe reflitam sobre efeitos da crise institucional. Expansão com inflação alta tem vida curta, diferentemente da experiência de países que se desenvolveram criando um mercado interno forte em consumo. Seria como alimentar uma crônica anunciada de indicadores econômicos.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

CONTINUE LENDO SOBRE