A crise sanitária causada pela covid-19, sem dúvida, tornou mais difícil a vida dos brasileiros. Desemprego crescente, inflação em alta, com forte impacto nos alimentos, tarifas públicas em ascensão. Esse conjunto de elevação de preços corrói a renda dos cidadãos e, por tabela, das famílias. Mas as dificuldades não são recentes e vêm piorando a cada ano, devido à deterioração econômica enfrentada pelo país e agravada pela pandemia.
Entre 2017 e 2018, só 1,1% das famílias tinha muita facilidade para honrar as contas mensais, enquanto 14,1% não conseguiam pagar os compromissos fixos e 46,2% atrasavam a quitação de despesas, como água, energia, aluguel ou prestação da casa própria, segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No recorte de gênero, o estudo mostrou que tanto homens quanto mulheres, à frente de 7% das famílias, enfrentavam a mesma dificuldade para cobrir as despesas domésticas. Porém, 17,5% dos lares chefiados por homens não conseguiam encerrar o mês com a renda familiar, o que ocorria só em 9% daqueles comandados por mulheres. Na avaliação do analista da pesquisa, André Martins, a diferença está associada à renda per capita mais baixa para famílias com referência feminina e ao maior número daquelas em que essa referência é masculina.
Independentemente das distinções de gênero ou raça, em que os grupos familiares de negros enfrentam mais obstáculos para se sustentarem, a pesquisa confirma a brutal concentração de renda, quando apenas 1,1% das famílias brasileiras não passam nenhum aperto diante das contas domésticas.
Essa desigualdade também é tangível regionalmente. O estudo mostra que o Sudeste é líder em transações financeiras, como tomada ou pagamento de empréstimos, despesas com parcelamento de imóveis, automóveis e motos, e concentra 12,8% da população em que as famílias tiveram pelo menos um contrato desses serviços. No Nordeste, o percentual chega a 9,4%, o dobro do Sul (4,7%). O Centro-Oeste vem a seguir, com 3%, e o Norte, com 2,2%.
As desigualdades socioeconômicas são evidenciadas em outras pesquisas, sejam elas do IBGE, sejam de outros institutos respeitados no país. Os sucessivos governos e seus planos econômicos não conseguiram mitigar as diferenças, que criam castas e afastam a grande maioria dos cidadãos dos benefícios do desenvolvimento econômico do país. Na crise, essa maioria é também a mais afetada, com sérios reflexos da qualidade de vida da parcela majoritária da população.
Hoje, o convulsionado cenário político, somado à tragédia sanitária, cujo enfrentamento foi equivocado desde o início, impacta seriamente em possíveis soluções para a economia nacional, que segue patinando desde 2014. Faltam ao país políticas sociais e um projeto de nação que elimine os fossos existentes e assegurem a igualdade entre os cidadãos como estabelecido no grande pacto pela cidadania, que foi a Constituição de 1988.