opinião

Artigo: Com o rabo entre as pernas

Rodrigo Craveiro
postado em 01/09/2021 06:00


O democrata Joe Biden entrará para a história como o presidente norte-americano que conseguiu a proeza de fugir no momento em que o Afeganistão foi lançado de volta ao buraco onde se encontrava 20 anos atrás. Ao antecipar a retirada de um país que voltou a ser controlado pelo Talibã, o democrata deu uma exibição tácita de covardia militar. Mais: de falta de compromisso com o futuro dos afegãos, jogados às traças. Ou melhor, aos insurgentes fundamentalistas islâmicos — que oprimem mulheres — e aos terroristas, que se explodem no meio de inocentes.

Ao abandonarem o Afeganistão nas mãos do Talibã e do Estado Islâmico-Khorasan, os EUA alimentaram o próprio inimigo. Após os gastos de US$ 2 trilhões e três gestões na Casa Branca (os republicanos George W. Bush e Donald Trump e o democrata Barack Obama), não contavam com o retorno do status quo ao ponto anterior a 2001. Também não apostavam na resiliência dos talibãs, na capacidade de se misturarem à população e no apoio dos senhores da guerra e líderes tribais pashtuns ao avanço da milícia.

Forçados a abandonar Cabul, depois de um atentado suicida que matou 170 pessoas (incluindo 10 fuzileiros) e da situação de segurança cada vez mais volátil no Aeroporto Internacional Hamid Karzai, os Estados Unidos transmitiram ao mundo uma imagem de fraqueza. A maior potência militar do planeta viu-se forçada a sair do Afeganistão com o rabo entre as pernas.

Depois de 7.267 dias de ocupação e em meio a uma economia tragada pela miséria e carcomida pela corrupção de títeres patrocinados pela Casa Branca, os EUA abrem espaço para que a rede terrorista Al-Qaeda e outros grupos extremistas se alimentem do radicalismo do Talibã e encontrem abrigo no Afeganistão. Mais emblemático é que a volta dos talibãs ao poder ocorreu a apenas 27 dias do 20º aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001 — o fator desencadeador da guerra. Osama bin Laden morreu, mas a Al-Qaeda segue viva e o antiamericanismo ganha cada força nos países muçulmanos.

O saldo da ocupação do Afeganistão é trágico e vergonhoso. O que Biden dirá aos pais de 2.448 soldados norte-americanos e de 3.846 compatriotas contratados pelos EUA para apoiarem os esforços militares no país asiático? Em 20 anos de guerra, 66 mil policiais e soldados afegãos, além de quase 50 mil civis, morreram em combates e em atentados. Vidas desperdiçadas, descartáveis. A lição deixada pelo fiasco da estratégia para o Afeganistão é a de que a hegemonia bélica dos Estados Unidos capitula ante uma tática atabalhoada de ocupação. Um legado que perseguirá Biden por toda a história.

 

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