opinião

Artigo: Qual lobo você vai alimentar?

Otávio Santana do Rêgo Barros — General de Divisão R1
postado em 01/09/2021 06:00
 (crédito: Gomez)
(crédito: Gomez)

Fôssemos um país organizado (civilizado), com a economia a pleno vapor, desemprego a taxas insignificantes, gestão bem conduzida para enfrentamento de emergências sanitárias, respeitado por políticas de inclusão social, referência na proteção ao meio ambiente, esta semana estaríamos fazendo zoada ao nos reunirmos alegremente para enfeitarmos a fachada de nossas casas em mais uma comemoração da passagem do Dia da Independência.

Fôssemos um país em que as lideranças políticas mais dialogassem do que se digladiassem, que as lideranças econômicas mais produzissem do que se beneficiassem de subsídios, que as universidades mais pesquisassem e ensinassem do que atuassem nas pendengas políticas, estaríamos planejando diligentemente o que fazer para materializarmos os duzentos anos de nossa independência (efeméride a ser comemorada no próximo ano). Missão conduzida por nossos antepassados ao sonharem e realizarem a construção de um país cheio de perspectivas.

Fôssemos um país onde as instituições significassem referência de serenidade ao cidadão comum, onde as leis alcançassem todos que delas fizessem pouco-caso, onde enriquecer seria natural pelo trabalho do indivíduo, e não fruto de conchavos ou corrupção, onde ser professor seria desejo dos jovens mais habilidosos, estaríamos treinando para o tradicional desfile nos principais logradouros das cidades de nosso país com escolas, organizações civis e destacamentos militares relembrando a formação da nacionalidade, consolidação de nossas fronteiras e libertação de Portugal.

Fôssemos um país onde planejamentos estratégicos ultrapassassem ciclos de governo e servissem de linha mestra de Estado, onde bolsões de pobreza fizessem parte apenas da história, onde os cultos religiosos professados não sofressem perseguições por agruparem gente de mesma crença, estaríamos reunidos em torno da mesa da família para que, pacientes, avós contassem aos netos histórias de um passado erguido na superação, estimulando-os a cunhar expectativas para suas vidas ainda em formação.

Fôssemos um país onde as lideranças soubessem inspirar por exemplos positivos, nunca por falta de modos, onde “gosto de levar vantagem em tudo” fosse apenas um bordão de propaganda de cigarro antiga, onde eleições fossem encaradas como forma de reavaliar um projeto de governo para ratificar ou substituir, onde a cultura fosse tratada como patrimônio indissolúvel da construção da sociedade, estaríamos nos reunindo em grupos da coletividade, descolados de governo, para oferecer suporte financeiro e acolhimento emocional a regiões inóspitas, onde os habitantes sofressem endemicamente a desesperança do isolamento e o esquecimento do poder central.

Infelizmente, não somos essa Ilha da Utopia de Thomas Morus! A pergunta que insiste em se apresentar todos os dias aos cidadãos de bem, os muitos cidadãos de bem, que habitam as Terras Brasilis: o que faremos para o contribuir com altruísmo com um futuro de bonanças para todos os filhos?

Doloroso é reconhecer o mal que a discórdia, que vem se impregnando em nossa sociedade, faz a todos nós. Acabo de ler o livro de Luciano Huck, De porta em porta, Editora Objetiva. Um belo exemplo de vida. Nas primeiras páginas, ele relata uma fábula atribuída ao povo indígena cherokee. Um velho diz ao neto: “Há uma batalha sendo travada dentro de mim, uma luta terrível entre dois lobos. Um é maligno — raivoso, ganancioso, ciumento, arrogante e covarde. O outro é bondoso — pacífico, amoroso, modesto, generoso, honesto e confiável. Esses dois lobos também estão lutando dentro de você e de todas as outras pessoas”.

Depois de um momento, o garoto pergunta:

—Qual dos dois lobos vai vencer?

O velho sorri.

— O lobo que você alimentar.

Nossas referências parecem apontar para os lobos deficientes de senso público e harmonia coletiva. Que instigam impensadamente o enfrentamento. Divergências que, neste momento, poderão deixar sequelas duradouras em peões arregimentados em nome daquela alcateia, preocupada tão-somente com a manutenção do status quo de poder conseguido a golpe de sorte e momento de descrença.

Quero alimentar o lobo saudável. O lobo do bem!

Que o próximo 7 de setembro seja uma bela festa cívica, apenas isso.

Paz e bem!

 

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