OPINIÃO

José Pastore: "7 de setembro: o que vem por aí?"

Correio Braziliense
postado em 03/09/2021 06:00
 (crédito: Gomez)
(crédito: Gomez)

Por JOSÉ PASTORE — Professor da Universidade de São Paulo e membro da Academia Paulista de Letras. É presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomercio-SP

Sinceramente, não esperava ver tanta energia concentrada em temas que nada têm a ver com os principais problemas do nosso povo. Numa hora de tanta aflição de curto prazo, devido à covid-19, e da necessidade de decisões importantíssimas para atender o longo prazo, estou apreensivo com manifestações programadas para celebrar os quase 200 anos da nossa independência.

A apreensão aumenta ao saber que a Justiça de São Paulo considerou apropriado ter um movimento na Avenida Paulista e outro, contrário, no Vale do Anhangabaú, na mesma hora, e sob o argumento de que são locais distantes um do outro — 3.500 metros! É um verdadeiro convite ao acirramento dos espíritos. Temos gravíssimos problemas pela frente. A pandemia não acabou. O vírus continua ceifando vidas e pode piorar. Isso exige observar rigorosamente todos os cuidados. Não é hora de se promover aglomerações.

Os problemas provocados pela pandemia são gigantescos e exigem ações imediatas. Não há espaço para elencar todos. Cito o caso das crianças e jovens que ficaram sem escola por 18 meses e que carregam profundas cicatrizes: terão dificuldade para conseguir trabalho; estarão mais sujeitos à rotatividade; amargarão muito desemprego. Precisamos redobrar os esforços para não perdermos essa geração. Isso demanda estratégia e muito trabalho. Muito mesmo!

A crise energética está aí e vai durar muito tempo. Enganam-se os que veem a falta de chuva como episódica. Ela se agrava a cada ano como reflexo das mudanças climáticas. Os reservatórios de muitas usinas brasileiras ficaram pequenos demais. Temos de acelerar as novas fontes de energia. Isso leva tempo. Mas o primeiro passo tem de ser dado agora.

A nossa infraestrutura está gravemente defasada. Há muitos anos, o país parou de investir nesse campo. Com a escassez de recursos do setor público, é urgente atrair e estimular os investidores privados. Infraestrutura cria muitos empregos. Isso exige um ambiente de confiança, segurança jurídica e de formulação de leis justas que promovam efetivamente o desenvolvimento da economia e do povo.

Temos pela frente um longo desafio no terreno legislativo. Precisamos parar de aprovar leis extrativistas — que enriquecem os grupos da elite à custa da extração de recursos do resto da sociedade. A desigualdade aumenta. O Brasil está repleto dessas leis que levam as nações para o precipício e nunca para o pleno desenvolvimento (ver Daron Acemoglu e James A. Robinson, Por que as nações fracassam, Elsevier-Campos Ed., 2012). Em suma, temos muito o que fazer neste imenso Brasil. Deus nos deu uma natureza farta. Precisamos cultivá-la para continuar a viver dentro dela.

Quando será que vamos aprender a irmanar em lugar de digladiar? Com tantos problemas pela frente — a fome se espalha — as nossas energias poderiam ser mais bem aproveitadas. Temo muito pelos desdobramentos deste 7 de setembro. Precisamos de um povo unido pelo amor — e não dividido pelo ódio. O apoio do povo é crucial para a resolução dos problemas que ferem tanta gente.

Confúcio dizia que, para governar, o governante precisa de armamento, alimento e apoio do povo, quando um dos seus discípulos perguntou:

— E se eu não puder dispor dos três. De qual eu devo abrir mão?

— Abra mão do armamento, disse Confúcio.

— E se eu não puder dispor dos dois?

— Abra mão do alimento, porque, sem a confiança do povo, é impossível governar.

Ainda há tempo para cancelar as contendas programadas e concentrar nossas energias nos graves problemas da nação. Oremos.

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