OPINIÃO

Bolsonaro em NY: o que restou?

Correio Braziliense
postado em 25/09/2021 06:00

José Horta Manzano - Empresário

Uma imagem vale mil palavras. De fatos antigos, acontecidos num tempo em que não havia como fixar uma cena no instante em que ocorria, o único testemunho que ficava era a palavra escrita. Episódios importantes para construir e estruturar nações foram retratados em pintura, com anos de atraso, o que ajudou a forjar a memória nacional. É o caso da tela pintada por Pedro Américo que retrata o momento em que Dom Pedro, então príncipe regente, levanta a espada e lança seu grito de “Independência ou Morte”. No imaginário coletivo brasileiro, não restam dúvidas: a cena do brado ocorreu exatamente como aparece no quadro, pintado quase 70 anos depois do ocorrido. É caso típico de imagem que vale mil palavras.

Em 19 de setembro, Bolsonaro e comitiva desembarcaram em Nova York. A finalidade do deslocamento de dezenas de pessoas — ministros, assessores e pessoal técnico — era coadjuvar o chefe, que leria um discurso de 15 minutos na abertura dos trabalhos anuais da Organização das Nações Unidas (ONU). Aos dirigentes de todos os países-membros (presidentes, primeiros-ministros, emires e assemelhados), tinha sido dada a possibilidade de enviar, com antecedência, um vídeo pré-gravado, a ser projetado no devido momento. O Brasil podia ter escolhido esse caminho, econômico e eficaz. A China e tantos outros fizeram. Desconheço as razões que levaram Bolsonaro a comparecer à cerimônia para ler, de corpo presente, o texto que lhe haviam preparado.

Obedecendo a uma lógica misteriosa e singular, o capitão até hoje não se vacinou contra a covid. Ainda que pareça bizarro, gaba-se disso e faz questão de revelar a turra a quem quiser ouvir. Nenhum outro integrante da comitiva admitiu ter rejeitado a vacina. A exceção fica por conta do general Ramos, que, faz meses, confessou ter-se vacinado às escondidas, que é para não desagradar ao chefe. Vista a ausência de confissão por parte dos demais integrantes, é permitido concluir que sim, todos estão vacinados. Portanto, o engajamento deles junto ao capitão não se faz por adesão cega à doutrina bolsonarista nem por amor incondicional a piqueniques de rua. Os motivos de cada um serão outros, que não convém aqui esmiuçar.

A cidade de Nova York não permite que não vacinados adentrem espaços públicos fechados: museus, teatros e, naturalmente, restaurantes. O capitão sabia disso antes de partir. Talvez tenha imaginado que um figurão como ele poderia escapar a certas regras chatas, como acontece em Pindorama. Não deu certo. Por aquelas bandas, não é não. Como resultado, logo na primeira noite em solo americano, o jantar da turma foi um pedaço de pizza de cara gordurosa, degustada de pé, numa sinistra calçada nova-iorquina, por um grupo sorridente e desinibido.

Pouco se disse sobre a encorpada composição da excursão aos EUA: oito ministros, cinco assessores de primeiro escalão, o presidente da Caixa, dois embaixadores, a primeira-dama e um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado. Na foto da degustação da pizza de calçada, falta pelo menos metade desse povo. Onde estarão? Não gostam de pizza e foram comer pastel do outro lado da rua? Ou resolveram desafiar a ira do chefe e tiraram do bolso o papelucho proibido: um certificado de vacinação? A história não diz.

No dia seguinte, a fotografia da fina-flor do Executivo brasileiro reunido para comer pizza junto à sarjeta saiu na imprensa mundial. Além de veículos óbvios, como os dos Estados Unidos, do Canadá, da França, de Portugal, da Espanha, da Itália e da Alemanha, outros, menos prováveis, publicaram a foto e o relato da situação a seus incrédulos leitores. Cheguei a ver a notícia, com foto e tudo, em jornais da Turquia, da Noruega, da Suécia, dos Emirados e até do Sri Lanka. Se você achava que ninguém nunca zombaria de seu país, pode se desenganar: Jair Bolsonaro e sua tribo se encarregaram de tornar realidade esse pesadelo.

Dois dias mais tarde, Bolsonaro leu seu discurso na tribuna na ONU. O que a história marcou, porém, é que o fato mais importante produzido na excursão não foi exatamente a fala do capitão. O discurso, um farto tecido de fatos falsos ou distorcidos, não interessou a ninguém. A imprensa mundial não deu importância. O que ficou na história, isso sim, foi a imagem do extravagante piquenique. Vai fazendo cada dia mais sentido: na política brasileira, quando se encomenda a pizza, é porque a comédia está chegando ao fim.

 

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