OPINIÃO

O cuidado humano não tem preço

SÉRGIO FIGUEIRA -Enfermeiro, formado pela Unisinos (RS) e atuante no programa Estratégia de Saúde da Família em Gravataí (RS)

Após 17 anos na Assistência de Enfermagem em Saúde Pública, chego à conclusão de que o cuidado humano não tem preço. Esse “não ter preço” é no sentido de não ter valor para uma sociedade que interpreta de forma distorcida os princípios fundamentais do Sistema Único de Saúde (SUS), que é gratuito, universal e igualitário. Nascemos num país que, apesar de querer ter uma imagem de modernidade e progresso, ainda tropeça e escorrega em questões de preconceitos, racismos, misoginias e homofobias, associadas a credos que impõem suas ideologias pela ingenuidade e pelo medo, e outros tantos tipos de discriminação que, se não são velados, são protegidos por instituições que não têm o mínimo interesse em mudanças.

É nesse contexto social que eu, negro, gay e enfermeiro, desenvolvo minhas atividades e partilho experiências com outros colegas negros, gays, mulheres e outras pessoas que fazem saúde e prevenção. Não é raro ouvir frases do tipo: “Negro é assim: não pode ter um cargo, que já fica metido”; “Venho outra hora porque não vou tomar a vacina ou a medicação da mão daquela negra”; “Meu filho vai ser atendido por este viado?” Tudo isso num clima de pouca segurança e quase nenhum respaldo dos gestores, por quê?

Porque o cuidado humano não tem preço, é de graça; logo, o serviço também tem pouco valor, o ambiente, igualmente, desprovido de segurança, e o respeito dá lugar a manifestações depreciativas garantidas por uma pretensa ou mal invocação à liberdade de expressão e pela indiferença e pouca valorização por parte das autoridades. Estas, quando acionadas diante dessas agressões, fica tudo no dito pelo não dito e, quando se consegue reafirmar o dito, “era tudo uma brincadeira”, e a questão também perde a seriedade.

O contexto histórico de toda essa realidade nos mostra a evolução de uma cultura que se firmou por meio do cuidado humano como sendo uma atividade exercida por mulheres e negros, dois participantes de pouca expressão. A mulher, por ser mulher simplesmente, que no exercício da enfermagem como cuidado, presta um serviço “nato” do sexo feminino, principalmente quando se trata também de algo ligado à caridade — que também caracteriza o foco de trabalho de muitas ordens religiosas (Hospital das Freiras ou da Ordem tal). O negro, por ter um histórico de trabalhos braçais e atividades desprezadas (afinal, nobres, brancos e ricos não trabalham com as mãos), exercendo seu trabalho no auxílio junto às necessidades básicas de higiene e conforto.

Assim, como vimos essa realidade ser romanceada na literatura durante a gripe espanhola, nas guerras e revoluções, acompanhamos, recentemente, a mesma situação durante a epidemia da covid-19, na qual toda uma classe, que é a maioria dentro de uma equipe de saúde, deve se contentar apenas com aplausos e mais nada. Partindo do princípio de que o cuidado humano tem em suas bases, toda uma sistematização, baseada em fundamentos científicos, todos e, principalmente, a equipe de enfermagem são profissionais que não conseguem entrar em ambiente de trabalho sem uma exaustiva carga horária de formação, com disciplinas teóricas e práticas e aprendizado em áreas de conhecimento bem diversificadas, que vão desde a anatomia e fisiologia humana, ética, patologia e farmacologia até as ciências sociais, para uma bem melhor compreensão e atendimento do indivíduo, inserido em todos os contextos de sua existência.

Baseado em tudo o que foi exposto, convido à reflexão sobre o preço do cuidado humano como essência do trabalho da enfermagem, seja no nível técnico ou superior. Apesar de ser uma profissão/vocação exercida, na sua maioria por mulheres, negros e LGBTQIAP+, todos são seres humanos que tiram o sustento do seu trabalho, têm uma família e um lar para voltar e, acima de tudo, também carecem de salário digno, respeito e cuidado humano para desenvolverem suas funções com arte, ciência e habilidade, saúde física e mental, no intuito de resgatar o paciente e promover a saúde da coletividade. Apenas aplausos, definitivamente, é uma forma muito distante do reconhecimento que esses profissionais merecem.