OPINIÃO

Visto, lido e ouvido — O vale-tudo dos vales

Desde 1960 Circe Cunha (interina) // circecunha.df@dabr.com.br
postado em 01/10/2021 06:00

Passado o que seria o primeiro tempo da pandemia, depois de um avanço tímido do programa de vacinação, o que se observa, no Brasil, enquanto não acontece o prosseguimento desse jogo da morte, é o que muitos previam: aumentos significativos tanto nos preços dos combustíveis quanto dos produtos da cesta básica e das tarifas de energia elétrica.

Ao lado dessas curvas perigosamente voltadas para cima, o que se tem é o encolhimento de nichos inteiros do pequeno comércio varejista, tragado pela pandemia, que fez desaparecer também boa parte do chamado terceiro setor, formado por prestação de serviços de toda a ordem. Tudo isso embalado por uma crise hídrica jamais vista, tendo ainda como pano de fundo, o aumento da pobreza, dos desmatamentos e da violência urbana. São problemas de sobra até mesmo para o mais fanático dos pessimistas.

Em meio a esse cenário, que parece o fim do mundo, o governo tenta trabalhar com o Centrão, que forma não só a sua base de apoio, mas também a de qualquer outro mandatário, desde que se disponha a pagar o alto preço cobrado, não sabe certo, para obter o respaldo necessário para seguir na direção que pretende. É nesse marasmo que o gigante Brasil permanece deitado eternamente. E é dentro desse gigante que dezenas de milhões de brasileiros assistem ao que parece um trágico e dramático momento da história do país. Estamos imersos, literalmente, na paz dos cemitérios. Difícil é explicar esse quadro todo para o cidadão comum, que a tudo assiste sem entender de onde sopra o vento frio.

Uma visita aos supermercados pode dar uma noção resumida do que acontece. Em 13 das 17 capitais analisadas pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o custo médio da cesta básica aumentou muito acima da inflação. Nem o comércio consegue dar conta da oscilação esquizofrênica dos preços, quando se notam diferenças de preços do mesmo produto da ordem de mais de 500% de um local para outro. Para consumidor de baixa renda, entrar num desses supermercados é uma verdadeira tortura e uma humilhação, uma vez que com os trocados que carrega no bolso, pouco ou nada, podem comprar. Arroz chegou aos R$ 30, feijão, a R$ 9, carne, só se for de capivara.

Para um país onde o governo se diz orgulhoso de ser o maior produtor mundial de carne bovina, aves e suínos, não faz sentido observar famílias inteiras, nos centros de atacados e de distribuição de alimentos, recolhendo ossos para levar para casa para fazer sopa. E como entender a estatal Petrobras, que vende o gás de cozinha a preços tão altos e inacessíveis ao pequeno consumidor, para não ficar mal diante da população, resolveu investir R$ 300 milhões em programas de subsídio para criar o vale-gás?

Depois do vale-refeição, do vale-transporte e de outros vales, num país onde o cidadão pouco vale, fica o dilema entre dar cidadania na forma de educação de qualidade, saúde e segurança ou conceder vales diversos, amarrando a população a políticas populistas e demagógicas que valem somente até as próximas eleições.

 

A frase que foi pronunciada

“Mas, então, é fácil, fácil demais fazer sermões sobre os perigos do paternalismo e a necessidade de assumir a responsabilidade por nossas próprias vidas, do conforto de nosso sofá em nosso lar seguro e higiênico. Não somos nós, que vivemos no mundo rico, os beneficiários constantes de um paternalismo agora tão profundamente embutido no sistema que mal o notamos? ”
Abhijit V. Banerjee, autor de Poor Economics: A Radical Rethinking of the Way to Fight Global Poverty


Participação
Fátima Bueno, do Lago Norte, reforça a necessidade de se abordar a falta de compromisso do agronegócio com o meio ambiente, trazendo a aridez permanente das terras exauridas. Diz a leitora que as gigantescas nuvens de poeira chegaram para engolir cidades como alerta máximo à degradação continuada do solo por plantações extensivas, pastos e garimpos em várias regiões do Brasil. A tão propalada exportação de carne, grãos e minérios, como salvação da economia nacional, não prevê o desabastecimento futuro, agravado com a escassez dos recursos hídricos, incentivo ao desmatamento e métodos antiquados de produção de energia.


Isso pode, Arnaldo?
Veja no Blog do Ari Cunha um homem-bomba cruzando a Ponte do Bragueto.

 

História de Brasília
Taguatinga está ameaçada de servir à população água contaminada. É que a água que abastece a cidade é retirada do Córrego do Cortado, e já fizeram loteamento no local da captação. (Publicada em 8/2/1962).

 

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