OPINIÃO

Visto, lido e ouvido — Nosso futuro Saara

Desde 1960 Circe Cunha (interina) // circecunha.df@dabr.com.br
postado em 02/10/2021 06:00

Como país que tem a maior parte do seu território inserida entre as linhas imaginárias dos trópicos de Câncer e de Capricórnio, o Brasil e outros na mesma situação geográfica experimentarão nas próximas décadas, um escalonamento progressivo nos níveis de temperatura, que tornarão a vida nesses locais, para dizer o mínimo, um martírio. Sobretudo as regiões ao norte, que incluem os estados do Amazonas, do Pará, do Acre, do Amapá, de Rondônia, de Roraima e de Tocantins.

As temperaturas nesses locais, por volta da virada do século, poderão aumentar, em média, até 12ºC, aproximadamente, o que tornará a permanência de populações nessas áreas um risco sério à saúde. Esses efeitos catastróficos se estenderão também para os países da América Latina, situados próximos a essa latitude, o que pode gerar um fluxo nunca visto de migrações em massa de populações para outras partes do planeta.

O problema é que o tempo na natureza não é o mesmo que reconhecemos nos relógios. Além disso, a natureza não tem qualquer compromisso com a sobrevivência da espécie humana, a partir do ponto em que passamos a romper, unilateralmente, os códigos naturais que ordenam o respeito ao meio ambiente e à sua preservação. Sem a preservação do meio ambiente e de todos os biomas conhecidos, a vida sobre o planeta será tão limitada e complexa como é hoje viver sobre o planeta Marte ou outro do nosso sistema solar.

Cavamos, por nossa incúria e ambição, a sepultura dos futuros habitantes deste planeta, sem qualquer arrependimento, cometendo uma espécie de crime premeditado contra a humanidade, que faria o Holocausto, com todo o respeito e dor, parecer uma travessura de criança. O desmatamento que segue acelerado em toda a área da floresta Amazônia e que consumiu também boa parte do cerrado brasileiro é a prova de que não apenas somos cúmplices desse genocídio, como deixamos todos os vestígios desse crime à mostra.

Seguidamente, os alertas científicos têm sido ignorados, quando não ridicularizados por nossas autoridades em conluio com os mais poderosos e gananciosos grupos empresariais que praticam em larga escala a produção de grãos e de carne bovina para o mercado externo.

Os bois e as monoculturas avançam florestas adentro, trazendo atrás de si as motosserras e os tratores que cuidam de “limpar” a área para nova produção, enquanto o sol, inclemente e impassivo em sua posição perpendicular ao solo, cuida de calcinar o campo descoberto, provocando, primeiro, um processo de savanização e, depois, o deserto com suas areias escaldantes e áridas.

A Floresta Amazônica e o cerrado representam o nosso Saara do amanhã. De acordo com estudos elaborados e publicados pela Communications Earth & Environment, que contaram com a colaboração de cientistas brasileiros da Fundação Oswaldo Cruz no Piauí, o desmatamento e a degradação do meio ambiente acelerados sem contenção alguma tornarão as regiões do norte do Brasil intoleráveis para a presença humana. Desidratação, cãibras, hipertermia e morte são as consequências que aguardam aqueles que permanecerem nessas localidades quando o forno da natureza for aceso de modo irreversível e avassalador .

Por enquanto, são apenas previsões, mas que se anunciam no dia com o aumento paulatino das ondas de calor. Moradores antigos dessas regiões lembram que, a cada nova estação do ano, os fenômenos anormais de cheias e enchentes, seguidos de ondas de calor insuportáveis, acontecem em ritmos cada vez mais intensos, prenunciando o pior que está por vir se nada for feito de imediato não apenas no combate ao desmatamento, mas em projetos de reflorestamento emergenciais.

Notem que, no atual estágio de degradação ambiental em que estamos, não adiantam medidas contra o desmatamento, que não acontecem, mas é preciso ainda um longo e lento processo de reflorestamento dessas áreas desmatadas para recompor pelo menos parte dos estragos feitos. Mesmo assim, os cientistas acreditam que todo esse processo de reverter o que foi destruído ao longo dos anos se tornou uma tarefa muito além da capacidade humana, sobretudo quando se sabe que todo esse esforço para impedir o pior ainda é um sonho de ambientalistas e sequer passa na cabeça daqueles que estão nas altas esferas do atual governo e entre os poderosos empresários do agrobusiness.

Em breve, todos esses senhores da morte lavarão as mãos para essas consequências deixadas para trás, sendo toda a culpa pelos crimes ambientais depositada nas costas do pequeno agricultor da região que vivia do extrativismo artesanal da castanha-do-brasil.


A frase que foi pronunciada

“Você tem cérebro em sua cabeça. Você tem pés em seus sapatos. Você pode se orientar em qualquer direção que escolher.”
Dr. Seuss


História de Brasília

Adjubei, genro de Kruchev, depois de visitar Brasília, disse que tivera, ao conhecer Oscar Niemeyer, maior emoção do que quando conhecera seu sogro.
(Publicada em 10/2/1962).

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