OPINIÃO

Foco na infância

Correio Braziliense
postado em 12/10/2021 06:00

PAULA BELMONTE - Deputada federal (Cidadania-DF) e coordenadora da Comissão Externa de Políticas Públicas para a Primeira Infância

Hoje é dia de comemorar e também de refletir sobre que nação queremos construir. O nascimento de uma criança é seguramente o momento mais sublime que vivenciamos em nossas vidas. A chegada de um filho nos traz alegria e preocupações. Ao mesmo tempo em que estamos lidando com as primeiras interações, o toque macio das mãozinhas, a amamentação, o cheirinho do bebê, estamos pensando de que maneira vamos propiciar àquele ser humano as condições materiais e emocionais para que se torne um adulto em plenas condições de realizar seus sonhos e contribuir com a sociedade.

Com o nosso país não deveria ser diferente, mas, infelizmente, a realidade vai em direção contrária. Cuidar de todas as crianças deveria ser a principal aspiração da sociedade, pois somente dessa maneira seremos uma nação desenvolvida. Não faltam estudos científicos para comprovar a importância do investimento na primeira infância. James Heckmann, vencedor do prêmio Nobel de Economia, alerta que países que não investem na primeira infância apresentam índices de criminalidade mais elevados, maiores taxas de gravidez na adolescência e de evasão no ensino médio e níveis menores de produtividade.

Heckmann afirma ainda que as primeiras impressões e experiências na vida preparam o terreno sobre o qual o conhecimento e as emoções vão se desenvolver mais tarde. Segundo ele, se essa base for frágil, as chances de sucesso cairão; se ela for sólida, vão disparar na mesma proporção. E não é só a ciência que nos mostra este caminho, mas também a sabedoria das avós, das cuidadoras, das merendeiras e das professoras, que, com muito amor, dedicam-se diariamente a tornar a infância um período alegre e feliz.

Acredito que o cuidado com a primeira infância é uma questão que vai muito além da busca pela justiça social e pelo fim da desigualdade. É uma questão que envolve, ou que deveria envolver, solidariedade e amor ao próximo. O que mais há são dados e estatísticas a mostrar que o Brasil não trata a primeira infância da forma adequada. Quase 5 milhões de crianças vivem em situação de extrema pobreza no Brasil.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Educação 2019 mostram que 20% dos jovens não completaram alguma das etapas da educação básica. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a evasão escolar no Brasil é oito vezes maior entre os jovens de famílias pobres, pois a maior parte deles precisa buscar renda mais cedo.

Esses números me causam angústia, pois a primeira infância é o momento em que o cérebro, se estimulado adequadamente, atingirá o seu potencial máximo de aprendizado. Por isso, precisamos investir em educação, desenvolvimento cognitivo, alimentação, saúde e socialização para as nossas crianças. Estamos desperdiçando este potencial, que é fundamental para o futuro do Brasil.

Sou autora da lei que criou o Biênio da Primeira Infância, que objetiva conscientizar a sociedade sobre a importância de promover o desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida da criança. O primeiro passo para mudar essa realidade é convencer a todos que, se não investirmos nas crianças, jamais nos tornaremos um país desenvolvido.

Além da conscientização, é preciso cobrar os poderes. Por isso, criei a Comissão Externa de Políticas para a Primeira Infância. A comissão acompanha a realidade da primeira infância no país, monitora os acontecimentos e as políticas públicas e abre canal de diálogo entre os três poderes e a sociedade civil para o aprimoramento da temática em diversas áreas.

Recentemente, estive em Dourados, no Mato Grosso do Sul, para acompanhar o caso de violência sexual contra uma menina indígena; e no município de Pacaraima, em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela, para monitorar a situação das crianças refugiadas. Um olhar atento aos mais vulneráveis é uma das missões da Comissão Externa.

O que eu peço no dia de hoje é que cada um olhe para seu filho, sobrinho, primo ou neto, dê um abraço bem apertado e deseje feliz Dia das Crianças. E que este abraço signifique um compromisso com todas as crianças. Se cada um de nós se empenhar pela infância no Brasil, dias melhores virão.

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