OPINIÃO

O mal dentro de casa

Cida Barbosa
postado em 14/10/2021 06:00

A postura de bom rapaz o colocava acima de qualquer suspeita. Até a família descobrir que, na verdade, tinha em casa um pedófilo. Entre as vítimas — quatro identificadas até agora —, estão as próprias irmãs do abusador, de 3 e 9 anos.

Na família de classe média alta e entre os conhecidos, “ninguém poderia imaginar” que o estudante de medicina, de 22 anos — considerado respeitador, educado e pacato —, é um predador sexual de crianças. Nem mesmo diante de episódios estranhos envolvendo o estuprador ou quando as vítimas começaram a emitir sinais de que passavam por intenso sofrimento, com ansiedade, depressão e mudança de comportamento. Pois as estatísticas sobre violência sexual contra crianças mostram que o mal está, sim, bem próximo delas. A maioria dos abusos é cometida por pais, mães, avós, padrastos, irmãos, tios, primos, além de vizinhos e de pessoas do círculo familiar.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, meninos e meninas de até 13 anos foram 60,6% das vítimas de estupro no país em 2020, e 85,2% dos criminosos eram conhecidos das vítimas, principalmente parentes. Apenas 14,8% das atrocidades foram levadas a cabo por desconhecidos. No início deste mês, por exemplo, um avô foi preso em Araxá (MG) por ter engravidado a neta, de 10 anos! A família só percebeu a barbárie quando o corpo da menina começou a mudar.

Muitas vezes, as crianças não compreendem que estão sofrendo violência, justamente porque o molestador é alguém conhecido, em quem têm confiança, portanto, não denunciam. Por isso, é importante conscientizá-las, com orientações conforme cada etapa do desenvolvimento delas. Se estiverem informadas, quando tocadas com desconforto, numa parte íntima, vão saber que algo está errado e conseguirão contar mais rápido.

Os abusos sexuais contra crianças e adolescentes independem de classe social, nível de escolaridade ou religião. E as consequências são profundas na saúde física e mental e no desenvolvimento deles.

Quem souber ou tiver suspeita de violência contra crianças e adolescentes pode denunciar em delegacias e Conselhos Tutelares, assim como pelo Disque 100, app Direitos Humanos ou no site da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ouvidoria.mdh.gov.br/), que funciona 24 horas, inclusive em feriados e fins de semana.

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