OPINIÃO

A banca do distinto

Correio Braziliense
postado em 22/10/2021 06:00
 (crédito: Gomez)
(crédito: Gomez)

ORLANDO THOMÉ CORDEIRO - Consultor em estratégia

Nos anos 1950, parte importante da história da música brasileira foi construída no Rio de Janeiro, entre os números 21 e 37 da Rua Duvivier, em Copacabana, no Beco das Garrafas. Foi ali que grandes nomes da bossa nova fizeram seus primeiros shows e despontaram para o estrelato. O local também foi palco de um episódio de preconceito sofrido pela cantora Dolores Duran. Segundo relatos, havia um homem que sempre ia aos shows da cantora porque gostava muito da voz dela, porém odiava negros.

O sujeito se sentava na primeira fileira, sempre de costas para o palco, e quando queria pedir uma música, dirigia-se ao garçom e, acenando com um bilhetinho na mão, dizia: “Manda a neguinha cantar essa música aqui!”.

Um dia, magoada e cansada do racismo, foi desabafar com Billy Blanco que, ato contínuo, presenteou a cantora com uma de suas obras-primas, A banca do distinto, cuja segunda parte nos traz os versos abaixo:

A vaidade é assim, põe o bobo no alto

E retira a escada

Mas fica por perto esperando sentada

Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão

Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco

Afinal todo mundo é igual quando o tombo termina

Com terra em cima e na horizontal

Foram exatamente esses versos que me vieram à mente quando, na última quarta-feira, o placar de votação da Câmara dos Deputados apresentou o resultado da votação da PEC 05, apelidada de “PEC da Vingança”. O presidente Arthur Lira estava empenhado pessoalmente na aprovação da proposta, apostando em mais uma vitória, mas, ainda que tenham faltado apenas 11 votos para a aprovação, a imagem que ficou registrada foi a da sua derrota.

A surpresa pelo resultado é porque, desde a sua eleição em 2 de fevereiro deste ano, o deputado vinha dando sucessivas demonstrações de força política, principalmente na relação com seus pares. Escudado no controle sobre o montante de R$ 11 bilhões em emendas parlamentares, implantou um estilo de trabalho em que uma das características tem sido usar e abusar da livre interpretação do regimento interno da Câmara Federal para exercer com mão de ferro a presidência.

Foi assim quando avocou para deliberação diretamente no plenário a volta do voto impresso, desprezando a decisão da comissão especial que havia derrotado a proposta. O mesmo aconteceu, recentemente, na discussão que levou à alteração na legislação sobre o ICMS dos combustíveis, atropelando os prazos para votar e aprovar a toque de caixa.

Entretanto, como na música, é inevitável chegar o dia em que “mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão”. Por outro lado, seria um equívoco identificar nessa derrota o início de seu declínio, sendo necessário analisar as razões que levaram à rejeição das mudanças na legislação quanto ao funcionamento e à independência do Ministério Público.

O fortalecimento e a visibilidade adquiridas pelo MP durante a Operação Lava-Jato e similares, com a abertura de processos judiciais contra diversos parlamentares, acirrou os ânimos no Legislativo, criando condições para a construção de alianças pluripartidárias com o objetivo de reduzir o poder daquele órgão. Então, por que razão não foi possível formar a maioria para aprovar as mudanças?

Parece-me que, diferentemente da avaliação feita por muitos analistas, o combate à corrupção ainda continua tendo um forte apelo junto a parcelas significativas do eleitorado. O volume de mensagens nas redes sociais condenando a PEC 05 e pressionando diretamente os parlamentares é uma demonstração inequívoca disso.

Aliás, essa é um dos principais motivos que levam o ex-juiz Sergio Moro a manter relevantes índices de intenção de voto. A crescente especulação em torno de sua eventual candidatura à Presidência, com a movimentação de diferentes partidos oferecendo-lhe legenda para a disputa, é mais um indicador dessa tendência.

Outro elemento, nesse mesmo terreno, apareceu na CPI por ocasião dos depoimentos e investigações comprovando corrupção no Ministério da Saúde no caso das vacinas Covaxin e Cansino. Foi exatamente quando vieram à tona os esquemas fraudulentos que o presidente Bolsonaro, pela primeira vez, ficou emparedado em sua narrativa de alardear ser o seu governo incorruptível.

Essa bandeira, provavelmente, não terá nas eleições de 2022 o mesmo peso relativo que em 2018, mas continuará a ser um dos fatores importantes para a decisão do voto. Caberá a candidatos e candidatas demonstrarem competência para incluírem o tema em suas narrativas. Do contrário, poderão ter o mesmo destino que o distinto retratado na música que dá título à coluna de hoje.

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