Visão do Correio

Visão do Correio: Conjuntura preocupante

A divulgação ontem pelo IBGE de que o IPCA-15, que é uma prévia da inflação oficial, fechou outubro com alta de 1,20% — a maior para o mês desde 1995 e a mais elevada desde fevereiro de 2016 — mostra uma perigosa aceleração de preços que deixa, pelo segundo mês consecutivo, a inflação acumulada em 12 meses com dois dígitos, numa escalada sem precedentes nas últimas décadas

Correio Braziliense
postado em 27/10/2021 07:21
 (crédito: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
(crédito: Fernando Lopes/CB/D.A Press)

O momento da economia, que deveria ser de celebração com a retomada das atividades após o avanço da vacinação e expectativas otimistas, se torna de incertezas e riscos na medida em que os problemas não são encarados. A divulgação ontem pelo IBGE de que o IPCA-15, que é uma prévia da inflação oficial, fechou outubro com alta de 1,20% — a maior para o mês desde 1995 e a mais elevada desde fevereiro de 2016 — mostra uma perigosa aceleração de preços que deixa, pelo segundo mês consecutivo, a inflação acumulada em 12 meses com dois dígitos, numa escalada sem precedentes nas últimas décadas. Com a inflação alta, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve anunciar hoje o aumento da taxa básica de juros, a Selic, de 6,25% para 7,50%, conforme expectativas de economistas e instituições do mercado financeiro. Mas pode ser que os juros básicos subam um pouco mais, para 7,75%, se os diretores do Banco Central seguirem o conselho do ministro da Economia, Paulo Guedes, que pediu à autoridade monetária para que “corra com o juro”.

Inflação em alta e taxa de juros acelerando funcionam como um freio para o crescimento econômico, porque, de um lado, a escalada de preços corrói a renda dos trabalhadores, comprimida pelo alto desemprego, e, de outro, o encarecimento do crédito inibe o consumo de bens de maior valor e os investimentos. Não sem razão, o Relatório de Mercado Focus, divulgado segunda-feira, mostra que, para este ano, a estimativa de inflação passou de 8,69% para 8,96%, enquanto a projeção para o PIB baixou de 5,01% para 4,97%. Essa tendência também vale para o ano que vem, com média de reajuste de preços subindo de 4,18% para 4,40% e a da geração de riqueza recuando de 1,50% para 1,40%.

Numa atitude mais agressiva, os economistas do Itaú/Unibanco revisaram a previsão de crescimento de 0,5% em 2022 para queda de 0,5%, com a justificativa exatamente da alta das taxas de juros e seu efeito sobre a expansão da atividade econômica. Nesse contexto, resolve pouco o ministro Paulo Guedes considerar que “a conversinha é sempre essa” quando o mercado piora as projeções para a economia brasileira. O governo mantém seu otimismo e prevê PIB acima de 2%. Mas, mais do que um embate entre os que estão certos e os que estão errados, é preciso observar o comportamento dos indicadores econômicos para enxergar problemas no médio prazo e trabalhar para que eles não se concretizem

Hoje, o Brasil caminha para uma estagflação, neologismo para explicar o ambiente de preços acelerados sem crescimento econômico. A alta dos juros vai encarecer consumo e investimentos que demandam crédito, inibindo tanto um quanto o outro. Terá efeito sobre a atividade econômica e pode sim baixar a inflação dos alimentos, mas terá pouco efeito sobre produtos e serviços com demanda compulsória e cujos preços dependem de fatores alheios à regra de procura e oferta no mercado interno. Combustíveis vão continuar em alta com os preços do petróleo atingindo patamares recordes, assim como a energia elétrica permanecerá cara enquanto os reservatórios das hidrelétricas não forem recuperados.

E, mais, tanto combustíveis quanto energia são impactados pela alta do dólar, que se mantém num patamar acima de R$ 5,50, por fatores externos, mas também pela desconfiança com a possibilidade de descontrole das contas públicas a partir da elevação de gastos para atender à necessidade de aliviar a profunda desigualdade para uns ou em nome de interesses eleitorais em 2022, para outros. É preciso que a área econômica do governo deixe a atitude passiva que a tem caracterizado até agora para se tornar protagonista de medidas que possam conter a inflação, de forma a reduzir a pressão sobre os juros e não permitir que o país enfrente recessão exatamente no momento em que se espera uma reação mais forte.

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