Visão do Correio

Fardo para a economia

Correio Braziliense
postado em 28/10/2021 06:00

A farra fiscal do governo, com objetivos puramente eleitoreiros, e a disparada da inflação levaram o Banco Central a pisar no acelerador. O Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou a taxa básica de juros (Selic) em 1,5 ponto percentual, para 7,75% ao ano, o nível mais alto desde setembro de 2017. O BC avisou que outra elevação, na mesma magnitude, ocorrerá em sua última reunião do ano, em dezembro. Portanto, no mínimo, a Selic encerrará 2021 em 9,25%. Um baque para a economia.

O quadro, no entanto, pode ser ainda pior: todas as projeções de especialistas apontam que a subida dos juros continuará nos primeiros meses de 2022. No pior dos cenários, a Selic irá até 12%. Para uma atividade caminhando a passos lentos, com 13,7 milhões de desempregados, não poderia ser mais desastroso. Mas não restou outra alternativa ao Banco Central a não ser agir com rigor para conter o custo de vida, que está acima de 10%, o que não se via desde 2016. A inflação é o maior dos males, sobretudo para os mais pobres.

É preciso ressaltar que a carestia é um problema global, mas, no Brasil, a situação se agravou por causa dos erros em série do governo — entre as 40 maiores economias do planeta, o país só está atrás da Turquia e da Argentina. A crise política alimentada pelo Palácio do Planalto empurrou o dólar para cima, contaminando todas as cadeias de preços, principalmente, dos combustíveis. Ao optar por furar o teto de gastos — instrumento que limita o aumento das despesas do governo à inflação —, o Ministério da Economia engrossou a onda de desconfiança.

A pesada fatura ficará clara no próximo ano. O país pode mergulhar na recessão, com inflação acima da meta, juros em níveis contracionistas, contas públicas no vermelho e desemprego ainda assustando. O BC admite que todos os indicadores que leva em consideração na hora de definir os rumos da política monetária pioraram. Nem mesmo o mercado externo, que vinha dando um alívio, ajudará o Brasil, especialmente se o Federal Reserve (Fed), o BC dos Estados Unidos, seguir o roteiro traçado, de retirar os estímulos à economia e subir os juros.

A expectativa era de que, com o avanço da vacinação e a reabertura de todos os setores, a economia deslanchasse. Contudo, a política desastrosa conduzida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e os arroubos eleitoreiros do presidente da República inundaram o Brasil de pessimismo. Diante da inflação alta e do crédito caro, os consumidores frearem a demanda. Sem previsibilidade, as empresas suspenderam os investimentos. A roda da produção perdeu força e tende a parar daqui por diante se o governo não fizer o que precisa ser feito: retomar o ajuste fiscal.

Em janeiro deste ano, a Selic estava em 2% ao ano. Era o mundo ideal. Mas tudo durou pouco porque o Banco Central subestimou a inflação — insistiu que era temporária —, o descompromisso com a austeridade fiscal se escancarou, o Congresso não avançou com as esperadas reformas e o governo se tornou uma fonte de crises. Agora, é contar com São Pedro para chover muito e reverter a crise hídrica, que encareceu a conta de luz, e torcer para que o bom senso se sobreponha às aventuras pela reeleição. O fardo para o Brasil está pesado demais.

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