OPINIÃO

Covid-19: o risco do excesso de otimismo

Correio Braziliense
postado em 29/10/2021 06:00

No momento em que o Brasil parece caminhar para um suposto cenário de "normalização" nas relações sociais e na economia, com cidades flexibilizando regras para grandes eventos e para o convívio social, convém ouvir o alerta de otimismo contido que vem da ciência em relação à covid-19. No campo dos bons prognósticos, o continente americano tem indicadores da doença que são os mais baixos em mais de um ano, indica a Organização Pan-Americana de Saúde, apesar de alertas localizados em alguns países. No Brasil, as estatísticas apontam que a maior vacinação em massa da história — com todas as falhas que teve, especialmente no início tardio — vem atingindo o objetivo de minimizar o impacto da doença, contribuindo para um cenário de controle.

Esse quadro se reflete no mais recente Boletim Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz. Segundo o estudo, as taxas de ocupação de leitos de terapia intensiva para a doença se mantêm estáveis, com 25 estados fora da zona de preocupação, a maioria com índices menores que 50%. Permanecem em atenção o Espírito Santo, onde o indicador subiu de 65% para 71%, em nível de alerta intermediário, e o Distrito Federal, onde houve queda de 89% para 80%. O patamar no DF ainda é crítico, porém com a ponderação de que a gestão local vem desmobilizando vagas exclusivas de UTI para tratamento de infecção pelo coronavírus, com aparente controle da situação. De resto, outras 10 unidades da Federação, entre elas Minas Gerais, também vêm manejando com sucesso essa redução, aponta a Fiocruz.

Indicadores como esses vêm orientando a reabertura da economia e a redução no distanciamento social em diferentes níveis de relaxamento. Assim, por exemplo, a capital do Rio de Janeiro, com cerca de 40% de ocupação em UTIs para a covid-19, segundo a Fiocruz, liberou a obrigatoriedade de uso de máscaras faciais em espaços abertos, assim como a lotação de 100% nos estádios de futebol, em um contexto em que a cidade tem potencial para receber jogos com grandes públicos. Na mesma toada, Belo Horizonte, com indicadores de ocupação na terapia intensiva em patamar pouco superior e também com previsão de partidas que mobilizarão milhares de torcedores, tem pedido para liberação total das arquibancadas.

É o mesmo movimento que orienta a disparada na procura de serviços como alimentação e entretenimento, em um cenário que parece refletir a abertura das comportas para uma demanda reprimida desde o início da pandemia. Não é por acaso que a Fiocruz, por meio de índice que mede a permanência domiciliar no país, constata que, desde setembro se observa intensa circulação de pessoas nas cidades, em níveis até superiores aos observados no pré-pandemia.

Nunca é demais observar que o número diário de óbitos pela covid-19, mesmo que tenha caído expressivamente em relação aos picos de abril, não difere muito dos observados em outubro do ano passado — embora desde então a vacina tenha permitido prognósticos de maior controle. Vale, portanto, o alerta feito pela própria Fiocruz: "A impressão de que já vencemos a pandemia é enganosa, sendo imperioso, neste momento, continuar vigilante em relação à covid-19. A flexibilização de medidas que protegem contra a transmissão do vírus deve ser adotada de forma cautelosa, paulatina e acompanhada de medidas de vigilância, para identificar rapidamente novos casos e seus contatos". Os especialistas da fundação alertam que é fundamental que o relaxamento do distanciamento, do uso de máscaras e de cuidados extras com a higiene seja adotado de forma gradual e segura, de preferência em paralelo à exigência do passaporte de vacinação. A história da pandemia no país demonstra que é prudente ouvi-los.

 

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