OPINIÃO

Zuza, enciclopédia musical

Irlan Rocha lima
postado em 02/11/2021 06:00

Ele não era cantor, compositor ou instrumentista, mas foi um dos personagens de maior relevância da música popular brasileira. Profundo conhecedor do jazz e de estilos diversos da MPB, Zuza Homem de Mello construiu uma trajetória vitoriosa como pesquisador, produtor, escritor e biógrafo. O paulistano, torcedor do São Paulo, morto em 4 de outubro último, vítima de um infarto agudo no miocárdio, enquanto dormia, aos 87 anos, deixou um precioso legado, reunido em nove livros.

O último deles é Amoroso: Uma biografia de João Gilberto, de 344 páginas, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Anteriormente ele escreveu para a Coleção Folha, da Folha de São Paulo, um livreto sobre a vida e a obra do cantor baiano, de quem era amigo e pelo qual nutria grande admiração, desde que em 1959, ouviu no rádio Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) — canção tida como o marco inicial da Bossa Nova, movimento considerado divisor de águas da MPB.

Ainda jovem, com o intuito de aprofundar o conhecimento do jazz, que ouviu inicialmente em casas noturnas de São Paulo, Zuza radicou-se nos Estados Unidos, onde, entre 1957 e 1958, estudou na School of Jazz e na Juillard of Music,em Nova York. Lá se aproximou de lendas jazzísticas da importância de Dizzy Gillespie, John Coltrone, Stan Getz e Thelonou Monk. Um ano depois, de volta ao Brasil, ingressou na TV Record, onde permaneceu por uma década, exercendo várias funções. Na emissora, destacou-se nos bastidores como técnico em programas como O Fino da Bossa, apresentado por Elis Regina; Jovem Guarda, que tinha Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa no comando; e nos icônicos festivais que revelaram, entre outros Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Tom Zé e Geraldo Vandré.

Na TV Cultura, dirigiu programas nos quais tinha convidados como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Orlando Silva, Jacob do Bandolim e Elizeth Cardoso, artistas importantíssimos da nossa história musical. Tudo isso ele relatou nos livros Música Popular Brasileira Contada e Canada, A Era dos Festivais, Eis aqui os bossa nova, Copacabana: A trajetória do samba-canção e A canção do tempo (dois volumes) — os dois últimos escritos com Jairo Severiano.

Tive o privilégio e tê-lo como amigo e a mais frequente fonte de consultas, sempre que tinha alguma dúvida, não sanada pelo Google. Estive com Zuza várias vezes no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em edições do Prêmio da Música Brasileira.Eram sempre encontros calorosos. A convite dele, prazerosamente, sentei-me à mesa na qual autografou A Era dos Festivais, aqui em Brasília, no Pátio Brasil, em 2003. Muita saudade de Zuza e do seu sorriso contagiante.

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